As histórias da História da Sétima Arte
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O Dia em que a Terra Parou (1951)


O filme O Dia em que a Terra Parou nasceu da história Farewell to the Master que Harry Bates publicou em 1940 na então conhecida revista de ficção científica Astounding Science Fiction. Numa altura em que a ficção-científica era levada pouco a sério (até ai os melhores exemplos do género eram Metropolis, Things to Come e algumas séries para as matines de sábado como a do Flash Gordon), A 20th Century Fox interessou-se pela história e adquiriu-a com o objectivo de produzir um filme de qualidade.

A escolha do realizador é um bom exemplo da seriedade com que o estúdio encarou o filme e coube a Robert Wise, então com 37 anos, liderar o projecto. Wise começou a sua carreira cinematográfica como técnico de som com apenas 20 anos, mas foi como técnico de montagem que a sua carreira começou a ganhar forma, nomeadamente como responsável por dois filmes de Orson Welles: O Mundo a seus Pés e O Quarto Mandamento. Em 1944 realiza o seu primeiro filme (Mademoiselle Fifi) e dá o mais importante passo de uma carreira que se estendeu por mais de 60 filmes, entre os quais West Side Story - Amor sem Barreiras, Musica no Coração, O Caminho das Estrelas, entre outros. Numa entrevista, Wise revelou que o que o atraiu para O Dia em que a Terra Parou, foi o facto de o extra-terrestre não ser maléfico e a história de ficção-científica ser passada na terra, o que lhe conferia um maior realismo.

Para o papel principal, Wise pretendia Claude Rains, o Capitão Louis Renault de Casablanca, mas o responsável da Fox, Darryl Zanuck, tinha visto Michael Rennie numa peça em Londres e considerou que uma cara desconhecida traria outra dimensão ao personagem Klaatu.

Muito embora o seu cepticismo inicial, Patricia Neal foi a escolhida para a principal personagem feminina e a sua interpretação é bastante convincente. Na sua autobiografia, Neal considera O Dia em que a Terra Parou o melhor filme de ficção-científica algumas vez feito, mas revela que teve dificuldade em manter uma cara séria durante as filmagens e muitas vezes teve de morder os lábios para não se rir.

Devido aos seus 2,2 metros de altura, a escolha para desempenhar o papel do robot Gort recaiu em Lock Martin, porteiro do famoso cinema chinês em Los Angeles. Muito embora a altura de Martin, foi necessário construir uma estátua gigante do robot para as cenas onde era preciso enfatizar a sua dimensão. Construída à base de fibra de vidro, a estátua difere do fato de látex utilizado por Martin e durante o filme é possível ver as diferenças entre ambos.

O robot e nave espacial são da responsabilidade de Lyle Wheeler e Addison Herh, que os conceberam de uma forma linear e de forma a enfatizar a racionalidade e “clareza de visão” da raça extraterrestre, em contraponto com a “confusão” existente no planeta terra.

Para a banda sonora do filme a escolha recaiu no temperamental Bernard Herrmann (Psycho e Taxi Driver) que optou por música electrónica à base de sons experimentais e que viria a tornar-se uma referência neste tipo de género cinematográfico.

Produzido em plena guerra-fria com um orçamento de 950 mil dólares, O Dia em que a Terra Parou estreou em Setembro de 1951 e a sua mensagem contra o comunismo e guerra nuclear desde cedo foi assumida pelos produtores. Devido à cena em que Klaatu é ressuscitado e ao facto de este escolher o nome Carpenter (Carpinteiro) quando decide conhecer melhor o planeta terra, muitos vêem também no filme uma mensagem religiosa, mas esta nunca foi um objectivo dos responsáveis.

O conjunto das suas partes faz de O Dia em que a Terra Parou um bom filme cuja mensagem politica e social se mantém tão actual como em 1951 (exemplar a crítica ao papel das Nações Unidas).

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The Day the Earth Stood Still
20th Century Fox, Estados Unidos, 1951, 92 min., ficção-científica
Realizador: Robert Wise.
Argumento: Edmund H. North, baseado na história Farewell to the Master de Harry Bates.
Actores: Michael Rennie, Patricia Neal, Hugh Marlowe, Sam Jaffe, Billy Gray, Frances Bavier, Lock Martin, Drew Pearson, Frank Conroy, Edith Evanson, Tyler McVey

Uma nave espacial aterra em Washington com a missão de avisar os habitantes da terra em desistirem das guerras ou serão destruídos.

The End

Quem é Allen Smithee?

Allen Smithee é um pseudónimo utilizado por realizadores que desejavam ver o seu nome retirado de um filme. O nome, instituído pela Associação de Realizadores da América (Director Guild of America – DGA), apenas podia ser utilizado quando o realizador conseguia provar, perante a DGA, de que que tinha perdido o controlo criativo do filme, muitas vezes devido à interferência dos produtores. O realizador era obrigado a manter a razão da discórdia em segredo e a utilização do pseudónimo não podia ser utilizado para esconder falhanços comerciais de um filme.

O nome foi utilizado pela primeira vez no filme de 1969 A Morte de um Pistoleiro (foto), cujo primeiro realizador (Robert Totten) foi substituído por Don Siegel. Ambos os realizadores ficaram insatisfeitos com o resultado final e nem um nem outro quis o seu nome associado ao filme. O primeiro nome proposto para constar na ficha técnica foi Al Smith, mas já existia um realizador registado na DGA com esse nome, tendo sido decidido o nome Allen Smithee. Curiosamente, o filme revelou-se um sucesso, incluindo junto dos críticos que elogiaram o trabalho de Allen Smithee.

Em 1997, Joe Eszterhas pegou no nome e escreveu o filme An Allen Smithee Film, que conta a história de um realizador desiludido com um filme e procura retirar o seu nome da ficha técnica, mas não consegue porque o seu nome é… Allen Smithee. O filme revelou-se um verdadeiro fiasco e a má publicidade associada (ajudada pelo facto de o realizador Arthur Hiller ter o utilizado o pseudónimo Allen Smithee) levou a DGA a terminar a utilização do nome. A partir de então a Associação decide caso a caso o pseudónimo a utilizar, como foi o caso do filme Supernova (2000), em que o realizador Walter Hill utilizou o pseudónimo Thomas Lee.

The End

Alice Guy-Blache, Pioneira da Setima Arte

Alice Guy-Blaché
A história do cinema está cheia de figuras pioneiras, que os tempos esqueceram. Alice Guy-Blaché é uma dessas figuras e cujo contributo foi fundamental para o desenvolvimento do cinema enquanto arte.

Alice Guy nasceu a 1 de Julho de 1873, em Paris. Filha de pais franceses, que viviam no Chile, Alice viveu os seus primeiros anos com a avó, até os pais regressarem a França, onde viriam a morrer pouco tempo depois.

A nível profissional, Alice Guy começou a sua carreira como secretária de Leon Gaumont, que trabalhava para um fabricante de máquinas fotográficas. Quando o negócio deste entrou em dificuldades económicas, Gaumont, em conjunto com outras figuras, entre elas Gustave Eiffel, comprou o inventário da empresa e formou, em 1895, a Gaumont, que viria a ser uma das mais importantes empresas cinematográficas do mundo. Alice acompanhou Gaumont na nova empresa e como responsável pela produção o seu trabalho revelou-se inovador, nomeadamente na utilização de cor, de som, de efeitos especiais e no desenvolvimento da narrativa cinematográfica, cujo melhor exemplo é La Fée Aux Choux (1896), considerado o primeiro filme narrativo da história do cinema. Em 1906, Alice realiza dois outros marcos da sua carreira: La Vie du Christ, a sua primeira longa-metragem e um dos grandes blockbusters da época do cinema mudo, com 25 cenas e cerca de 300 figurantes, e La Fée Printemps, que utiliza efeitos especiais a cores.

Em 1907, Alice casa com Herbert Blaché, que, pouco depois, foi nomeado responsável de produção da Gaumont nos Estados Unidos. Alice acompanha o marido para os Estados Unidos e, após trabalharem juntos na Gaumont norte-americana, o casal decide formar a sua própria empresa: a Solax Company. Sediada em Nova Iorque, a Solax tornar-se-ia no maior estúdio pré-Hollywood e onde Alice continuou o seu trabalho como directora artística, escrevendo e realizando grande parte da produção da empresa.

Em 1922, Alice Guy-Blaché realiza Tarnished Reputations, que viria a ser o seu último filme e dois anos depois divorcia-se, regressando a França. Ai tenta retomar a sua carreira, mas a dificuldade em provar o seu curriculum, já que poucos ou nenhum dos filmes da Gaumont sobreviveram, levam-na a escreve romances a partir de argumentos cinematográficos e a dar palestras sobre cinema. Esquecida durante décadas, Alice Guy-Blaché viu o seu trabalho reconhecido em 1955, quando foi condecorada pelo Governo Francês com a Legião de Honra. Nove anos mais tarde regressa os Estados Unidos para viver com uma das suas filhas, falecendo em 1968.

Com uma carreira de mais de 700 filmes, que abrangeram géneros tão diferentes como o drama, o western e as biografias, o trabalho de Alice Guy-Blaché permitiu o desenvolvimento do cinema, ajudando-o a transformar-se técnica e esteticamente.

The End

RKO Radio Pictures

Logotipo RKO

A RKO Radio Pictures foi criada em 1928 pela Radio Corporation of America (RCA), cujo sistema de som em película (Photophone) tinha sido preterido pelo da rival Western Electric (Vitaphone) pelos estúdios de Hollywood. Como resposta à Vitaphone, a RCA adquiriu a rede de salas de cinema Keith-Albee-Orpheum e a produtora Film Booking Office of America (FBO), criando a RKO com o objectivo de produzir apenas filmes sonoros.

Os primeiros anos da empresa, dominados pelos musicais e comédias cheias de diálogos, foram de algum sucesso, mas os realizadores que trabalhavam para o estúdio não estavam satisfeitos com as condições existentes e, em 1931, a RKO adquiriu a Pathé americana, cujos estúdios e rede de distribuição permitiu aumentar a capacidade de produção e distribuição da RKO. Nesse mesmo ano David O. Selznick torna-se o responsável pela produção do estúdio e cria uma unidade em que produtores independentes são contratados para produzir um determinado número de filmes, sem qualquer interferência do estúdio, mas em que este dividia os custos de produção em troca dos direitos de distribuição. A estratégia de Selznick passava também por realizar grandes estreias das suas maiores produções e, assim, foi responsável pela construção da maior sala de cinema do mundo, o Radio City Musical Hall, em Nova Iorque. A sala possibilitava a estreia das maiores produções do estúdio, rodeados de grande publicidade e notoriedade. Infelizmente a estratégia revelou-se bastante cara: quer para o estúdio, que fechou o ano de 1932 com 10 milhões de dólares de prejuízo, quer para Selznick, que foi despedido.

Merian C. Cooper, um antigo colaborador de Selznick, torna-se o novo responsável pela produção da RKO e o estúdio passa a apostar na produção de filmes de menor orçamento. No entanto, um dos primeiros filmes a sair do estúdio nesta altura é King Kong (realizado pelo próprio Cooper), que estreia no Radio City Music Hall rodeado de grande publicidade e torna-se um dos grandes sucessos do estúdio. Para além das suas próprias produções, a RKO distribuía ainda os filmes de Walt Disney (curtas e longas-metragens) e as produções de Samuel Goldwyn. Durante a década de 30, estão sob contracto do estúdio estrelas como Cary Grant, Irene Dunne, Douglas Fairbanks, Jr., Fred Astaire, Ginger Rogers, Katharine Hepburn, entre outros, e embora a RKO não tivesse os recursos financeiros dos restantes estúdios, os seus filmes eram conhecidos pelo seu estilo e desenho de produção.

No final da década de 1930 e já sob a orientação de George Schaefer, a RKO volta a apostar na qualidade e do estúdio saem filmes como As Duas Feras e O Mundo a Seus Pés, este considerado como o melhor filme de todos os tempos. Mas a política de filmes de prestigio não teve grande sucesso e, a partir de 1942 já sob o comando de Charles Korner, a RKO aposta em secções duplas e em filmes B. Após a morte de Korner, o seu sucessor, Dore Schary, reaviva algumas práticas de Selznick e volta a apostar em co-produções com produtores independentes, tais como: Do Céu Caiu uma Estrela, Os Melhores Anos das Nossas Vidas, Forte Apache, Os Dominadores, entre outros.

Ao contrário dos restantes estúdios de Hollywood, em que cada um tinha um género porque era conhecido, a RKO não era sinónimo de nenhum género específico. No entanto, é possível identificar a marca do estúdio num conjunto de filmes que marcaram a história do cinema durante esta década. Reflexo dos filmes de baixo orçamento que o estúdio produziu durante a década de 40, o film noir tornou-se num importante marco da RKO e os actores que estavam sob seu contracto tornaram-se os mais conhecidos do género: Robert Mitchum, Jane Russell, Robert Ryan, Audrey Totter, George Raft, entre outros.

Em 1948, o milionário Howard Hughes adquire parte do capital da RKO por pouco menos de 9 milhões de dólares e o estúdio, ao contrário do que seria de esperar, entra num período conturbado: para além de despedir 2/3 dos empregados do estúdio, as psicoses de Hughes fazem parar a produção durante seis meses, enquanto o milionário investiga o passado político dos restantes empregados. Uma vez retomada a produção, Hughes interferia nas filmagens e ordenava a rodagem de novas cenas sempre que considerava que os actores, em particulares as mulheres, não sobressaíam ou se a mensagem anticomunista não era suficientemente explicita.

A ordem do tribunal norte-americano em obrigar os estúdios de Hollywood a vender as suas salas de cinema, afectou também a RKO, que viu a sua frágil situação financeira piorar. Para agravar a situação ainda mais, Hughes dava mais atenção aos seus interesses aeronáuticos do que ao estúdio (o milionário detinha fábricas de aviões e era dono da transportadora aérea TWA) e foi alvo de diversos processos judiciais por má gestão. Aborrecido com estes fait-divers, Hughes acabou por comprar a maioria das acções da RKO por 24 milhões de dólares e, em 1954, tornou-se na primeira pessoa a ser dona de uma das majors de Hollywood. Seis meses depois, Hughes vende inesperadamente a RKO à empresa de pneus General Tire and Rubber Company por 25 milhões de dólares, mantendo apenas os direitos sobre os filmes que produziu pessoalmente.

O interesse da General Tire era, não tanto nos estúdios, mas nos filmes da RKO, já que as estações de televisão, inclusive as da General Tire, necessitavam de conteúdos para a sua programação. Sabendo disso, a General Tire logo vendeu os direitos dos cerca de 700 filmes da RKO por 15 milhões de dólares, cujo preço revelava a importância deste tipo de conteúdo. Este negócio permitiu que grande parte dos filmes da RKO, incluindo clássicos como O Mundo a Seus Pés e Do Céu Caiu Uma Estrela, passasse regularmente na televisão e os filmes fossem redescobertos pelo público.

A General Tire ainda tentou gerir o estúdio, mas grande parte da produção resumia-se a remakes de sucessos anteriores ou filmes B. Anos de má gestão levaram realizadores e produtores a perderem confiança no estúdio e Walt Disney e Samuel Goldwyn acabaram por abandonar o estúdio. Perante este cenário, a General Tire decide fechar a RKO em Janeiro de 1957 e vender os estúdios à produtora de televisão Desilu Productions, que em 1967 viria a ser comprada pela Paramount Pictures e os transformou na Paramount Television. Com o fecho da produção, os filmes ainda por estrear da RKO foram distribuídos, entre 1957 e 1959, por diversos estúdios, entre eles a Warner Bros., a Metro-Goldwyn-Mayer e a Universal Pictures, mas sempre mantendo a indicação de que os direitos de autor pertenciam à RKO.

O nome do estúdio permaneceu durante os anos, já que a RKO General era a dominação da empresa subsidiária da General Tyres para os meios de comunicação e que detinha uma cadeia de rádios. Em 1989, a General Tyres foi comprada pela alemã Continental Tire, que vendeu a RKO General à empresária Dina Merrill e ao seu marido, o produtor Ted Hartley. Os novos donos, que detêm todos os direitos sobre os logótipos, marcas, argumentos, histórias, remakes e sequelas dos filmes da RKO Radio Pictures, ressuscitam a produtora, produzindo remakes de sucessos antigos e peças de teatro. Embora ainda hoje se mantenha activa, a actual RKO Pictures é uma sombra dos seus tempos áureos, mas a sua história é parte integrante da sétima arte.

The End