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As histórias da História da Sétima Arte

Historia do Cinema: 1920-1929

A era do sonoro

"O Cantor de Jazz", a primeira longa-metragem sonora

"O Cantor de Jazz", a primeira longa-metragem sonora

A década de 1920 é marcada pelo espírito do pós-guerra e a diversidade das produções cinematográficas são reflexo disso mesmo. Nos Estados Unidos, os talentos de Charlie Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd dominam na comédia, Cecil B. De Mille continua a realizar melodramas carregados de sensualidade e os primeiros filmes de gangsters e documentários fazem a sua aparição. Na Europa, as experiências vanguardistas de Man Ray e Luis Bunuel marcam a França do pós-guerra e a Alemanha vive, na primeira metade da década, a era de ouro do expressionismo alemão. Após anos de filmes de propaganda, o cinema soviético (controlado pelo Estado) torna-se num centro criativo, cujo expoente máximo são as obras de Sergei Eisentein. Por sua vez, a Índia vive uma década extremamente produtiva, produzindo cerca de 100 filmes por ano.

Em Hollywood, a vida da cidade e da industria cinematográfica é dominada pelos escândalos das estrelas de cinema que, à semelhança dos personagens que interpretam no grande ecrã, vivem histórias pessoais rocambolescas: o comediante Fatty Arbuckle abandona a sua carreira cinematográfica devido às suspeitas de assassinato da actriz Virginia Rappe; em 1918, as salas de cinema recusam-se a exibir os filmes de Francis X. Bushman, quando se tornam publicas as suas aventuras extra conjugais; o ídolo da juventude Wallace Reid morre, vitima de drogas; a actriz exótica Pola Negri vê a sua popularidade aumentar quando o seu romance com o actor Rudolph Valentino se torna público.

O final da década viria a ser marcada por um dos mais importantes acontecimentos da história do cinema: a exibição do primeiro filme sonoro. Muito embora as experiências de Thomas Edison, foi a pequena empresa Vitaphone (criada pela Warner Bros. e pela Wester Electric) a desenvolver um sistema eficaz e a produzir as primeiras curtas-metragens sonoras em 1926 e um ano mais tarde a primeira longa-metragem sonora: O Cantor de Jazz, realizada por Alan Crosland e protagonizado por Al Jolson.

Os filmes sonoros foram um sucesso imediato e no final da década, perto de metade das salas de cinema americanas estavam preparadas para os exibir. Muito embora o seu sucesso, o sonoro levou à ruína de alguns actores: uns não tinham a voz mais indicada para o novo registo cinematográfico, outros, como Mary Pickford, não conseguiram fugir à imagem que construíram durante a era do mudo e retiraram-se.

A década não terminaria sem mais um acontecimento importante e que iria influenciar a economia mundial, incluindo a indústria cinematográfica: a queda da bolsa de Nova Iorque em Outubro de 1929 e o início da depressão económica.

"O Couraçado de Potemkin", do realizador Sergei Eisentein

"O Couraçado de Potemkin", do realizador Sergei Eisentein

Timeline, Década 1920 - 1929

1920

  • Executivos de Hollywood e políticos criam o Comité de Americanização para encorajar o sentimento patriótico em filmes.
  • Existem cerca de 20 mil salas de cinema a operar nos Estados Unidos.
  • Produtores independentes americanos tentam controlar a distribuição de filmes através da aquisição de novas salas de cinema.
  • A exibição do filme O Gabinete do Dr. Caligari dá inicio ao Expressionismo Alemão, que teve como maiores exemplos as obras dos realizadores F.W.Murnau, Robert Wiene e Fritz Lang.
  • O Brasíla assiste aos primeiros filmes com som sincronizado, que utilizavam um disco que tocava ao mesmo tempo que era exibido o filme.
  • A Polónia assiste à construção do primeiro estúdio cinematográfico do país, em Varsóvia.

1921

  • O estúdio estatal Alemão UFA assina um acordo com a Famous Players-Lasky Corporation para a exibição dos seus filmes nos Estados Unidos.
  • Durante a década, muitos dos actores e realizadores suecos emigram para os Estados Unidos, tais como Greta Garbo, Mauritz Stiller e Victor Sjorstrom.

1922

  • The Toll of the Sea é a primeira longa-metragem a ser filmada no sistema de duas cores da Technicolor.
  • O explorador Robert Flaherty realiza o primeiro documentário do mundo, Nanuk, o Esquimó, sobre o dia a dia de uma família de esquimós.
  • Em Itália, a produção nacional diminui devido à invasão de filmes americanos e alemães.
  • A China cria a primeira produtora do país, controlada pelo Estado.

1923

  • A exibição do filme A Caravana Gloriosa populariza os filmes de cowboys.
  • O filme de Cecil B. De Mille Os Dez Mandamentos, orçado em 1 milhão de dólares, torna-se num enorme sucesso de bilheteira.
  • A Eastman Kodak introduz no mercado a película de 16 milímetros, destinada a amadores, mas o formato torna-se popular nos mercados industrial e educacional.
  • As cidades japonesas de Tóquio e Yokohama são atingidas por um terramoto, destruindo a maioria dos estúdios e salas de cinema do país que ai se concentravam.
  • Um promotor imobiliário constrói a palavra Hollywoodland nas colinas de Los Angeles. Mais tarde a palavra é encurtada, ficando como um dos mais lendários símbolos da sétima arte.
  • Durante os 10 anos seguintes, o Japão tem uma das mais produtivas cinematografias mundiais.
  • O estado soviético cria a unidade criativa Proletino para produzir filmes políticos.

1924

  • Algumas salas de cinema nos Estados Unidos começam a programar secções duplas.
  • São criados os estúdios Gainsborough, em Inglaterra, onde Alfred Hitchcock viria a realizar os seus primeiros filmes.
  • Começa a nascer a Poverty Row, uma zona de Hollywood onde ficam instalados os escritórios de pequenas produtoras, entre elas a Columbia Pictures.
  • A Metro-Goldwyn Pictures é criada a partir da fusão entre a Metro Pictures, Goldwyn Pictures e a Louis B. Mayer Productions.
  • A produtora Famous Players-Lasky começa a ser ofuscada pela sua distribuidora Paramount, que ganha cada vez mais poder com as salas de cinema que vai adquirindo. 1925
  • Os dinossauros fazem a sua primeira aparição nos ecrãs de cinema, no filme O Mundo Perdido, cujos efeitos especiais são criados por Willis O’Brien, que mais tarde seria o responsável pelos efeitos do filme King Kong.
  • Por causa de um concurso de uma revista de cinema, a Metro-Goldwyn-Mayer muda o nome da actriz Lucille Le Seur para Joan Crawford.
  • A jornalista Louella Parsons inicia a sua famosa coluna de opinião.
  • A Warner Bros. lança uma estação de radio, adquire a empresa Vitagraph e junta-se à Western Electric para desenvolver um sistema de som para filmes.
  • Em O Couraçado de Potemkin, o realizador Sergei Eisenstein introduz a técnica de montagem.
  • A produção cinematográfica checa reacende-se e ganha fama internacional.

1926

  • O actor Rudolph Valentino morre aos 31 anos. Os estúdios de Hollywood encerram para o funeral, que é cenário de inflamadas reações dos fãs do actor.
  • Don Juan é o primeiro filme a utilizar o sistema sonoro Vitaphone, apenas com efeitos sonoros e música.

1927

  • A 6 de outubro, estreia a primeira longa-metragem sonora (O Cantor de Jazz), protagonizada por Al Jolson. A reacção do público é extremamente positiva.
  • É criada, nos Estados Unidos, a Academia das Artes e Ciências das Imagens em Movimento, que atribuirá, em 1929, os primeiros prémios de excelência da industria cinematográfica, conhecidos por Óscares.
  • O realizador Frank Capra é contratado pela Columbia Pictures, sendo de extrema importância na ascensão da produtora como um dos principais estúdios de Hollywood.
  • É inaugurada, em Hollywood, a famosa sala de cinema The Chinese Theater e em Nova Iorque abre a maior sala de cinema com 6.214 lugares.
  • Os estúdios de Hollywood impõem regras de conduta a si próprios a proibir a exibição de escravatura branca, romance inter-racial e o uso de drogas.
  • A Famous Players-Lasky Company torna-se nos estúdios Paramount.
  • O Egipto produz a sua primeira longa-metragem (Laila).
  • A produção cinematográfica norueguesa ganha reconhecimento com o filme Troll-elgen.

1928

  • A Warner Bros. estreia o primeiro filme totalmente sonoro e é responsável por todos os filmes sonoros produzidos neste ano (10).
  • Utilizando um sistema de som melhorado, Walt Disney e Ub Iwerks produzem o cartoon Steamboat Willie, dando a conhecer a personagem do Rato Mickey, à qual Disney fornece a sua própria voz.
  • Com a estreia do seu primeiro filme sonoro (Amores de uma Actriz), a actriz Pola Negri é forçada a reformar-se uma vez que o seu sotaque polaco não é perceptível pelo público.
  • A Paramount anuncia que a partir de 1928 apenas produz filmes sonoros.
  • Pela primeira vez é utilizado um trailer com som para anúnciar o filme Noites de Nova Iorque.
  • É criado o estúdio RKO Radio Pictures.
  • Estreia, em Paris, o filme Um Cão Andaluz de Luis Buñuel. Muito embora as suas imagens perturbantes, o filme tem boa aceitação pelo público.
  • Os realizadores soviéticos Eisenstein, Alexandrov e Pudokin apresentam a teoria sobre o cinema sonoro, intitulado “O Futuro do Filme Sonoro”.
  • O governo soviético critica o realizador Eisenstein pelo seu filme Outubro e decide que os filmes soviéticos devem ser realizados de modo a serem percebidos pelas massas.

1929

  • A Academia das Artes e Ciências Cinematográficas realiza a primeira cerimónia de entrega dos Óscares.
  • Os Irmãos Marx estreiam o seu primeiro filme, Os Quatro Cocos, e King Vidor realiza o primeiro filme sonoro apenas com actores negros.
  • A Warner Bros. adquire várias editoras de música, com o objectivo de utilizar as músicas nos seus filmes.
  • Comediantes, da Warner Bros., é o primeiro musical sonoro a cores.
  • Vários países europeus, entre eles a Inglaterra, França, Austria e Hungria, impõem quotas à importação de filmes estrangeiros.
  • A legislação italiana obriga a que todos os filmes sejam exibidos em italiano.
  • O número de espectadores triplica em França entre o fim da I Guerra Mundial e 1929.
  • Alfred Hitchcock realiza Chantagem, o primeiro filme sonoro inglês.
  • A voz do actor John Gilbert é ridicularizada pelo público, aquando da exibição do seu primeiro filme sonoro (His Glorious Night).

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1910-1919

O início da industria cinematográfica e a influência da I Grande Guerra

D.W. Griffith, Mary Pickford, Charlie Chaplin (sentado) e Douglas Fairbanks (à direita) na assinatura de criação da United Artists

D.W. Griffith, Mary Pickford, Charlie Chaplin (sentado) e Douglas Fairbanks (à direita) na assinatura de criação da United Artists

Depois de nos primeiros anos ser visto como uma novidade, o cinema começa a desenvolver-se e as transformações que ocorrem durante a década de 1910 são os primeiros sinais de uma indústria que viria a marcar intensamente o século XX.

A cada vez maior aceitação do cinema pelo público leva ao surgimento de produtoras independentes, que tentam romper com a Motion Pictures Patents Corporation (MPPC) e a sua hegemonia no mercado de nickelodeons. As novas produtoras, entre elas a Independent Motion Pictures (IMP) e a Famous Players - Lasky Corporation, apostam em longas-metragens, em contra ponto com os pequenos filmes da MPPC, que aliam inovações tecnológicas ao espectáculo. Um dos realizadores que mais se destaca neste período é D.W.Griffith que realiza, em 1915, um dos filmes mais marcantes da história do cinema: O Nascimento de uma Nação.

Um dos factores decisivos que contribuiu para o desenvolvimento do cinema como industria foi a alteração da reacção do público em relação aos actores. Constatando que o público reagia a determinados actores (a ponto de querer saber mais sobre as suas vidas pessoais), os responsáveis pelos estúdios potenciaram essa situação, dando nome aos actores e criando, por vezes, “personagens reais” para alimentar a vontade do público. Nasce, assim, a estrela de cinema, que Hollywood conseguiu potenciar como ninguém.

De França e Inglaterra chegam filmes como La Dame aux Camélias (1911), Henry VIII (1911) e Hamlet (1913), longas-metragens que encontram uma grande receptividade junto de uma classe média cada vez mais receptiva à sétima arte, que, assim, deixa de ser uma mera forma de entretenimento para as classes trabalhadoras. Devido a estes acontecimentos, os nickelodeons entram em declínio e com eles a MPPC.

A década fica marcada pela I Grande Guerra Mundial, que, inevitavelmente, influenciou também a sétima arte. Se até ai o mercado mundial era dominado pelas produções francesas e americanas, com o início do conflito os filmes americanos começam a ganhar terreno devido à redução da produção europeia (com excepção da Suécia, cuja neutralidade permitiu manter uma regular produção cinematográfica).

Pelo final da década, e do conflito armado, a indústria cinematográfica era muito diferente da do início da década: substituídos por salas de cinema, os nickelodeons já praticamente não existiam e actores e realizadores eram agora figuras públicas com uma palavra a dizer no seu trabalho. Reflexo disso mesmo é a criação, em 1919, da distribuidora United Artists pelos actores Charlie Chaplin e Mary Pickford, pelo realizador D.W. Griffith e pelo produtor Douglas Fairbanks.

O final da década evidenciava já o que viria a acontecer nas décadas seguintes: o crescimento de Hollywood e o seu domínio na industria cinematográfica mundial.

UFA

Timeline: Década 1910 - 1919

1910

  • A MPPC tenta controlar a distribuição cinematográfica, mas enfrenta a oposição de produtores independentes como Carl Laemmle e William Fox.
  • A MPPC tenta limitar a exibição de filmes estrangeiros nos Estados Unidos.
  • D.W. Griffith compra, pela primeira vez na história do cinema, os direitos cinematográficos de uma obra de ficção (Ramona).
  • Alice Guy-Blaché, uma das pioneiras do cinema, o seu marido Herbert e George A. Magie fundam a Solax Company, que viria a tornar-se no maior estúdio de cinema pré-Hollywood.
  • A França, Itália e a Dinamarca são os principais exportadores de filmes para os Estados Unidos.
  • As primeiras salas de cinema começam a surgir na Alemanha.
  • Até 1913, a produção da empresa Dinamarquesa Nordisk Film é reconhecida internacionalmente.

1911

  • O público contesta a distribuição dos filmes de D. W. Griffith em várias partes e a Biograph decide distribui-los por inteiro.
  • As comédias deixam de dominar a produção cinematográfica, assistindo-se ao proliferar de outros géneros: dramas, westerns e recriações históricas.
  • A Nestor Company é o primeiro estúdio a iniciar actividade na Califórnia.
  • Na Europa, os filmes têm uma duração superior a 15 minutos e as suas histórias são cada vez mais complexas.
  • A indústria britânica começa a perder terreno para a produção francesa e americana.
  • O estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, cria um comité de censura.

1912

  • Adolph Zukor funda a Famous Players e Carl Laemmle cria a Universal Film Manufacturing, que mais tarde viria dar origem à Universal Pictures. O estúdio Keystone Comedy distribui o seu primeiro filme, tornando-se no estúdio dominante durante a década.
  • Francis X. Bushman e Beverly Bayne tornam-se no primeiro par romântico da história do cinema.
  • O governo americano e o distribuidor William Fox processam o Fundo Edison e a MPPC por práticas ilegais.
  • No Japão, vários estúdios tentam controlar o mercado, criando a empresa Nippon Katsudoshashin.
  • Estreia do primeiro filme indiano, Pundalik. Realizado por P.R. Tipnis e N.G. Chitre em Bombai, Pundalik conta a história da vida do santo hindu com o mesmo nome.

1913

  • A cidade de Nova Iorque cria legislação para regulamentar as salas de cinema, dando origem ao primeiro “palácio” cinematográfico em 1914.
  • A produção italiana de 8 bobines Quo Vadis é um sucesso internacional, sendo exibido em Nova Iorque durante meses, custando, cada entrada, o preço recorde de 1,50 dólares.
  • O realizador Cecil B. de Mille aluga um celeiro em Hollywood para o seu filme The Squaw Man; mais tarde viria a ser o local da Paramount Pictures.
  • A Edison Company demonstra em Nova Iorque o filme sonoro, mas o sistema não funciona correctamente.

1914

  • A personagem “O Vagabundo” de Charlie Chaplin surge pela primeira vez no filme Kid Auto Races at Venice.
  • Chaplin começa a realizar os seus próprios filmes.
  • Os filmes de animação tornam-se populares, surgindo personagens como “Gertie, o Dinaussauro” e ” Felix, o Gato”.
  • A primeira grande sala de cinema abre em Nova Iorque.
  • A Inglaterra produz os seus primeiros desenhos animados.
  • Durante a I Grande Guerra Mundial, a produção cinematográfica diminui drasticamente nos países europeus ocupados.

1915

  • A estreia do filme O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith, torna-se um acontecimento social. O filme tem a sua própria banda sonora (que se torna um êxito) e o preço do bilhete custa 2 dólares, o mesmo que uma entrada para o teatro. O filme provoca protestos anti-racistas, levando o presidente americano a condenar o filme.
  • A MPPC é formalmente acusada de práticas ilegais e há muito perdera o controlo da indústria cinematográfica para as produções de Hollywood.

1917

  • Na Alemanha, o Governo, o Banco Nacional Alemão e investidores conservadores adquirem pequenos estúdios e criam a produtora/distribuidora UFA, que vira a torna-se no estúdio dominante no país e um dos mais importantes da Europa.
  • Os filmes japoneses começam a utilizar técnicas como flashbacks e planos aproximados e as mulheres começam cada vez mais a interpretar papeis femininos, quebrando a tradição de todos os papeis serem interpretados por homens.

1918

  • Após anos de litígios, a MPPC deixa de existir.
  • A Warner Bros. distribui o seu primeiro filme e a Ebony Film Corporation distribui o primeiro apenas com actores negros.
  • Estrelas de cinema participam no esforço de guerra, interpretando papéis em filmes de propaganda e vendendo acções de guerra.

1919

  • Charlie Chaplin, Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith criam a United Artists para produzirem e distribuírem os seus próprios filmes.
  • Os estúdios começam a adquirir salas de cinema.
  • Oscar Micheaux, o primeiro realizador negro, realiza o seu primeiro filme (The Homesteader).
  • Os Estados Unidos dominam o mercado cinematográfico europeu.
  • Após a revolução, Lenin nacionaliza o cinema soviético, levando a que alguns realizadores emigrem para Europa e Estados Unidos.

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1900-1909

Os nickelodeons

Salão de nickelodeons nos Estados Unidos

Salão de nickelodeons nos Estados Unidos

À entrada do novo século, o cinema era uma das mais baratas formas de entretenimento, essencialmente destinada às classes trabalhadoras. No entanto, em 1900, uma greve de artistas de variedades obrigou os donos de teatros a procurarem formas alternativas de entretenimento encontrando nas “imagens em movimento” uma boa opção. Ao mesmo tempo, os nickelodeons proliferavam nas cidades, sendo frequentados essencialmente por trabalhadores emigrantes.

Com o passar dos anos, o cinema deixa de ser visto como algo menor e começa a atrair a atenção das classes mais altas. Para isso, muito contribuíram os filmes de Edwin S. Porter, nomeadamente The Life of an American Fireman e o épico The Great Train Robbery. Com uma duração inédita de 12 minutos, The Great Train Robbery utilizava técnicas narrativas inovadoras e que viriam a ser desenvolvidas posteriormente ao longo dos anos, o que possibilitou captar um tipo de público diferente do habitual.

Na Europa, a empresa francesa Film d’Art eleva a qualidade das produções cinematográficas com as suas adaptações de grandes obras literárias, protagonizadas por consagrados actores de teatro. As produções da empresa influenciaram toda a industria e dão origem a um aumento da produção de filmes mais longos e vendidos a preços mais altos. Dois bons exemplos disso mesmo, são o francês La Reine Elisabeth (1912) e o norte-americano O Nascimento de de uma Nação (1915). França tornara-se um dos grandes centros de produção cinematográfica, tendo também as maiores produtoras cinematográficas do mundo, a Gaumont e Pathé. No outro lado do atlântico, as maiores empresas cinematográficas eram a Biograph, a Edison e a Vitagraph, cujo negócio tinha por base a venda de filmes a metro e de equipamento de projecção aos exibidores.

O final da década viu também o fim de uma luta entre várias empresas pelas patentes de equipamento cinematográfico e, em 1908, é criada a Motion Pictures Patents Company, conhecida como Fundo Edison. Esta empresa controlava a distribuição, produção e exibição cinematográfica e obrigava produtores e exibidores a comprarem material aprovado pelo Fundo, controlando, em monopólio, a industria cinematográfica americana.

À medida que as salas de cinema proliferavam, também a tecnologia se desenvolvia, nomeadamente a nível da projecção, tendo-se desenvolvido um conjunto de processos que perduram até hoje.

Nos Estados Unidos do final de década, os nickelodeons estavam no seu auge, sendo vistos por milhões de pessoas diariamente. Mas brevemente seriam substituído por verdadeiras salas de cinema, uma vez que os grandes estúdios de Hollywood, estavam prestes a nascer.

Viagem à Lua, de Georges Méliers

Viagem à Lua, de Georges Méliers

Timeline, Década 1900-1909

1900

  • Filmagens da vida real dominam a exibição de filmes.
  • Os irmãos Lumière produzem mais de 2 mil filmes, na sua maioria, actividades do dia à dia e histórias de acção.
  • Em França, Léon Gaumont demonstra a sincronização de imagens e som.

1901

  • A francesa Pathé é o maior estúdio do mundo.
  • A Finlândia assiste à inauguração da primeira sala de cinema do país.

1902

  • Georges Méliers utiliza, de forma experimental, animação e efeitos especiais nos filmes L’ Homme à La Tête en Caoutchouc e Le Voyage dans la Lune, respectivamente.

1903

  • No seu filme Life of an American Fireman, Edwin S. Porter utiliza técnicas de montagem inovadoras para construir tensão dramática, assim como planos de ligação e de aproximação.
  • Porter realiza The Great Train Robbery, o primeiro western da história do cinema.
  • Abre a primeira sala de cinema no Japão.
  • Peter Elfelt realiza o primeiro filme de ficção dinamarquês, Henrettelsen.

1904

  • A empresa francesa Pathé abre o seu primeiro estúdio em Nova Iorque.
  • Copenhaga recebe a primeira sala de cinema da Dinamarca.

1905

  • O filme de 35mm a 16 fotogramas por segundo, desenvolvido pelos irmãos Lumière, torna-se a regra na industria cinematográfica.
  • Durante os próximos anos, a francesa Gaumont domina a industria cinematográfica, quer em quantidade de filmes produzidos, quer em reputação.
  • A produção japonesa aumenta com o inicio da guerra entre o Japão e a Rússia.
  • Abre, em Londres, a primeira sala de cinema construída de raiz.
  • Itália produz a sua primeira longa-metragem.
  • Nasce o primeiro jornal dedicado à industria cinematográfica, Variety, publicada ainda nos dias de hoje.

1906

  • James Stuart Blackton realiza um dos primeiros filmes de animação, Humorous Phases of a Funny Face.
  • A Islândia inaugura a sua primeira sala de cinema.
  • O filme australiano The Story of the Kelly Gang é a primeira longa metragem da história do cinema, com pouco mais de uma hora de duração.
  • Em Inglaterra, G.A.Smith regista o sistema de cor, Kinemacolor.
  • O inventor sueco Sven Berglund trabalha num sistema de gravação de som em película, através de um processo óptico.

1907

  • A audiência dos nickelodeon ultrapassa os 2 milhões e os filmes são acusados pela Igreja e pela imprensa de incentivarem a violência.
  • Os filmes britânicos, que até aqui tinham bastante aceitação internacional começam a diminuir de importância devido ao aumento da industria americana.
  • A Finlândia produz o seu primeiro filme (Salavinanpolttajat).

1908

  • É criada a Motion Pictures Patents Company para administrar a produção e distribuição cinematográfica e que tem como objectivo alargar o cinema às classes mais abastadas da sociedade.
  • D. W. Griffith é contratado pela Biograph e realiza o seu primeiro filme, The Adventures of Dollie.
  • A Noruega produz o seu primeiro filme de ficção (Fiskerlivets Farer: Et Drama po Havet).
  • O Japão assiste à inauguração do primeiro estúdio do país.
  • Vladimir Romashkov realiza o primeiro filme russo (Stenka Razin).
  • Mario Gallo realiza El Fusilamiento de Dorrego, o primeiro filme argentino com actores profissionais.
  • O realizador português António Leal realiza, no Brasil, Os Estranguladores e Os Guaranis.
  • Os primeiros filmes a cores são exibidos em Londres.

1909

  • Carl Laemmle funda o primeiro estúdio independente da Motion Picture Patents Company (MPPC). Outros produtores independentes rejeitam as regras da MPPC e começam a rodar os seus filmes na Califórnia, tornando esta no grande centro cinematográfico dos Estados Unidos.
  • O estado de Nova Iorque estabelece uma comissão de censura.
  • É criada, em Paris, a Société du Film d’Art para produzir filmes de melhor qualidade que atraiam as classes sociais mais altas.
  • O governo inglês cria legislação para regulamentar a actividade cinematográfica.
  • O escritor irlandês James Joyce abre a primeira sala de cinema em Dublin.

Texto de Rui Chambel

Historia do Cinema: 1830-1899

Da descoberta da fotografia às imagens em movimento

Gravação kinetoscópica de um espirro por Edison

Gravação kinetoscópica de um espirro por Edison

O cinema mais não é do que uma ilusão óptica, em que um conjunto de imagens, cada uma ligeiramente diferente da anterior e projectadas num ecrã de uma forma rápida, é interpretado pela mente humana como movimento contínuo. Este fenómeno, designado por persistência da visão, foi uma das invenções e descobertas cientificas ocorridas ao longo do século XIX, que possibilitaram o nascimento do cinema.

Uma inovação essencial para o nascimento do cinema foi, então, a fotografia, que se tornou comercialmente viável em 1839, quando Louis Daguerre desenvolveu um método que permitiu a impressão de fotografias em chapas de metal. Enquanto o método de Daguerre permitia a captura de sucessivas imagens de pessoas ou objectos em movimento, o Zoopraxiscope, de Eadweard Muybridge, permitia a projecção num ecrã, de uma forma rápida, de imagens imprensas num vidro rotativo, dando assim a ilusão de movimento. Outros avanços tecnológicos importantes para o nascimento do cinema foram a descoberta da electricidade e das lâmpadas incandescentes, que mais tarde viriam a ser incorporadas nos projectores, e o celuloide, que John Wesley inventa em 1869 e que servirá, anos depois, como a base da película cinematógrafica.

Muito embora todos estes avanços, o nascimento do cinema não foi imediato e foi necessário o espírito criativo de Thomas Edison, nos EUA, e dos irmãos Lumière, em França, para que a sétima arte visse a luz do dia. Edison, ao aperceber-se que as imagens em movimento poderiam atrair muita gente, desenvolveu o Kinetoscope, uma caixa de madeira que funcionava à base de moedas e que permitia a uma pessoa assistir a um pequeno filme. Os primeiros filmes de Thomas Edison estrearam em Abril de 1894 em Nova Iorque, onde Edison abriu o primeiro salão Kinetoscope. o primeiro filme registado foi “Edison Kinetoscopic Record od a Sneeze” (Gravação kinetoscópica de um espirro por Edison - tradução livre).

No ouro lado do Atlântico, os irmãos Lumiere tomam conhecimento da invenção de Edison e interessam-se pelas imagens em movimento, inventando o Cinematógrafo, um aparelho que permitia a projecção de filmes num ecrã. A 28 de Dezembro de 1895, no Salon Indien du Grand Café, em Paris, os Lumiere efectuam a primeira projecção pública de filmes e o cinema, tal como o conhecemos, nasceu. Do programa desse dia constaram, entre outros, os filmes La Sortie des Usines Lumière (que mostra operários a saírem da fábrica dos irmãos Lumière) e L’Arroseur Arrosé, o primeiro filme de ficção da história do cinema.

Thomas Edison não se fica atrás e adquire o seu próprio sistema de projecção, o Vitascope, e inicia a projecção de filmes em 1896. No final da década outras empresas surgem no mercado, entre elas a Biograph e a Vitagraph, e no meio de sucessivos processos judiciais por causa de patentes, o cinema começa a ganhar público entre as classes trabalhadoras.

Café Paris

Café Paris, local da primeira exibição pública de cinema

Timeline, Década 1800 - 1899

1831

  • Os fisicos Michael Faraday (britânico) e Joseph Henry (americano) descobrem o principio da indução electromagnética, que levará, no final da década, à descoberta da energia eléctrica.

1839

  • O inventor francês Louis Daguerre desenvolve o Daguerreotype, o primeiro método comercial para produzir fotografias.

1841

  • O inventor britânico William Fox Talbot patenteia o Calotype, processo para imprimir negativos fotográficos em papel.

1869

  • John Wesley Hyatt inventa o primeiro plástico comerciável, o celuloide, que mais tarde servirá de base à película cinematográfica.

1879

  • O americano Thomas Edison regista a primeira lâmpada incandescente, que será parte importante dos projectores cinematográficos.

1887

  • Na Alemanhã, Ottomar Anschultz demonstra o Electrotachyscope, um mecanismo que faz girar um disco com imagens e que, assim, cria a ilusão de imagens em movimento. Ao contrário da projecção, as imagens do Electrotachyscope apenas eram vistas por uma dezena de pessoas ao mesmo tempo.

1889

  • O americano George Eastman inventa o filme de celuloide perfurado.
  • Thomas Edison desenvolve o Kinetophonograph que permite sincronizar a projecção de um filme com uma gravação fonográfica. 1891
  • Thomas Edison inventa o primeiro sistema cinematográfico do mundo,o Kinetograph, e o Kinetoscope, uma caixa que permitia ver filmes.

1892

  • O francês Émile Renauld demonstra o Praxinoscope, que permite projectar pequenas animações desenhadas à mão, num ecrã.

1893

  • Thomas Edison constrói o primeiro estúdio de cinema (Black Maria) em Nova Jersia.
  • Tem lugar em Nova Iorque a primeira exibição pública do Kinetoscope.

1894

  • Thomas Edison inicia a actividade comercial do Kinetoscope, em Nova Iorque.
  • Robert W. Paul, um cientista de Londres, descobre que Edison não tinha registado o Kinetoscope na Inglaterra e começa a aperfeiçoá-lo; os melhoramentos incluem um sistema que torna as imagens menos distorcidas e a sua projecção num ecrã.
  • Em Berlim, Ottomar Anschutz faz a demonstração de um sistema de projecção.

1895

  • A 28 de Dezembro, os irmãos Lumière efectuam a primeira exibição pública de filmes, data considerada como a do nascimento do cinema.
  • Os americanos Thomas Woodville e Charles Jenkins desenvolvem o Phantascope, um sistema de projecção mais desenvolvido.
  • Em Inglaterra, Robert W. Paul e o fotografo Birt Acres colaboram na construção de uma câmara de filmar; Acres começa a filmar eventos desportivos.
  • Na Alemanha, Max Skladanowsky regista o seu projector Bioskop e faz uma projecção pública em Berlim.

1896

  • Thomas Edison adquire os direitos do Phantascope (passando-se a chamar Vitascope) e inicia projecções públicas em Nova Iorque.
  • As empresas Biograph e Vitagraph iniciam operações, tornando-se nas principais rivais da Edison Company.
  • Em Inglaterra, Birt Acres demonstração da projecção de filmes e funda a Northern Photographic Works.
  • Robert W. Paul dá a conhecer o seu método de projecção de filmes e meses depois realiza o primeiro filme de ficção inglês, The Soldier’s Courtship.
  • Peter Elfelt realiza o primeiro filme Dinamarquês.
  • O espectáculo dos Irmãos Lumiere estreia na Índia.
  • A primeira exibição cinematográfica em Espanha ocorre em Madrid, perante uma audiência constituída principalmente por colegiais.

1897

  • A Vitagraph estreia o seu primeiro filme de ficção The Burglar on the Roof.
  • Fructuoso Gelabert realiza o primeiro filme de ficção espanhol, Rina en un Café.

1898

  • Até meados da década seguinte, em vez de alugarem, as empresas cinematográficas vendem os filmes e o equipamento de projecção às empresas exibidoras.
  • Os imigrantes e as classes trabalhadoras constituem o grande público cinematográfico.

1899

  • Cecil Hepworth, um dos fundadores da industria cinematográfica britânica, produz os seus primeiros filmes.
  • O Japão produz os seus primeiros filmes.
  • Robert W. Paul inaugura um dos primeiros estúdios ingleses no norte de Londres.
  • Auguste Baron trabalha no seu sistema sonoro, mas não encontra grande receptividade.

Texto de Rui Chambel

Casablanca (1942)

A compra, em 1941, da peça Everybody Comes to Rick’s, pelo então chefe de produção da Warner Bros. Hal Wallis, deu inicio à produção de um dos mais famosos filmes de todos os tempos. Muito embora Casablanca seja um “produto” do studio system que vigorava em Hollywood na altura, é possível identificar o importante papel que Wallis teve no resultado final. O chefe de produção da Warner não se limitou apenas a supervisionar a produção do filme, a sua intervenção abrangeu todos os aspectos da produção, tendo, por exemplo, decidido ainda antes da compra da peça que Humphrey Bogard seria a estrela do filme.

Em 1942, Wallis pediu aos irmãos Epstein, dois dos melhores argumentistas da Warner, as suas opiniões sobre a peça que comprara. A resposta foi entusiasta e deve-se aos dois argumentistas grande parte do argumento do filme, em particular o humor e as transformações das personagens do Capitão Renault e de Rick (que lhes conferiram maior simpatia e interesse). Quando os irmãos Epsteins entregaram a primeira versão do argumento e continuavam a trabalhar no que faltava, Wallis pediu a outro argumentista do estúdio, Howard Koch, a sua opinião. O contributo de Koch permitiu melhorar ainda mais a personagem interpretada por Bogard e "encaixar" melhor na história algumas das suas atitudes.

A primeira escolha para realizador recaiu em William Wyler, mas a pretensão de Wallis não se concretizou e teve de recorrer ao seu amigo Michael Curtis. De origem húngara, Curtiz realizara mais de 60 filmes mudos na Europa antes de viajar para os Estados Unidos, onde foi recepcionado por Wallis, que na altura era ainda apenas um dos publicistas da Warner e os dois tornaram amigos desde esse momento. Quando Wallis lhe ofereceu Casablanca, Curtiz estava ocupado a terminar Yankee Doodle Dandy e não deu muita importância ao seu novo trabalho. No entanto, o papel do realizador foi preponderante, em particular no ritmo que imprimiu ao filme.

Também importante foi a escolha dos actores. Se Bogard foi a primeira (e única) opção para o papel principal, já a escolha de Ingrid Bergman se deveu ao facto de o seu contracto ser mais barato que o de Michele Morgan, actriz também considerada para o papel de Ilsa. Bergman vivia um momento menos feliz da sua vida e quando soube que tinha sido contratada a sua reacção foi um misto de nervosismo e excitação, reconhecendo que nada sabia sobre o filme. Para os restantes papeis a Warner conseguiu excelentes actores (dificilmente se consegue imaginar Casablanca sem Claude Rains ou Peter Lorre), tendo à sua disposição um vasto conjunto de actores europeus: estrelas nos seus países, grande parte deles tiveram de se exilar nos Estados Unidos durante a guerra, onde aceitavam papeis menores.

A rodagem de Casablanca iniciou-se no dia 25 de Maio de 1942, com grande parte do argumento já concluido. No entanto, para Wallis subsistiam ainda alguns problemas com a personagem de Ilsa e com o final da história. Muito embora os rumores em contrário, nunca houve muitas duvidas que Ilsa acompanharia Laszlo para Lisboa, o problema estava em como dar credibilidade ao final. A solução da peça original não era a melhor, tanto para mais que a entrada dos Estados Unidos na II Grande Guerra inviabilizava qualquer tipo de vitória para a Gestapo. Assim, o confronto final foi transferido para o aeroporto e a presença de Laszlo apanha Ilsa de surpresa, acompanhando-o na viagem para Lisboa.

Com o fim da rodagem, em meados de Julho, o compositor Max Steiner começou a trabalhar na banda sonora. Steiner não gostou de As Time Goes By e tentou convencer Wallis a substituir a canção por uma das suas baladas. Mas como Ingrid Bergman já tinha cortado o cabelo para o papel que iria interpretar em For Whom the Bell Tolls, não pode filmar novamente a cena e, assim, a canção manteve-se no filme.

Mesmo com a rodagem terminada, Wallis não deixou de melhorar o filme e em meados de Agosto acrescentou a cena do polícia a anunciar a morte de dois agentes alemães e fez Bogard gravar uma nova frase: “Louis, i think this is the beginning of a beautiful friendship“.

Casablanca estreou no dia 26 de Novembro de 1942 em Nova Iorque, mas só seria exibido a nível nacional em Janeiro do ano seguinte. O filme foi um dos sucessos de bilheteira de 1943 e numa sondagem onde participaram cerca de 435 críticos foi considerado o 5º melhor do ano. No entanto, Casablanca acabaria de ganhar o Óscar para melhor filme, melhor realizador e melhor argumento.

Talvez com a excepção das interpretações de Bogard e Bergman, não há nada mais em Casablanca que se possa considerar de excepcional. No entanto, no seu todo, é um filme maravilhoso, em que todos os seus elementos combinam na perfeição, fazendo dele um dos melhores da história da sétima arte.

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Casablanca
Warner Bros., Estados Unidos, 1942, 102 min., drama.
Realizador: Michael Curtiz.
Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch e Casey Robinson (sem crédito), baseado na peça “Everybody Comes to Rick’s” de Murray Burnett e Joan Alison.
Actores: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre, Dooley Wilson.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Casablanca é o refugio para exilados de guerra e o ponto de passagem para Lisboa a caminho dos Estados Unidos. Rick Blaine, exilado americano, é dono do clube nocturno mais popular de Casablanca, local de intriga e conspirações. Quando Victor Laszlo (líder da resistência) chega a Casablanca acompanhado de Ilsa, Rick vê-se confrontado em ajudar a mulher que o abandonou anos antes em Paris.

Texto de Rui Chambel
Foto: www.themoviedb.org

Os 4 Espiões (1936)

Os 4 Espiões é um dos menos conhecidos filmes do realizador Alfred Hitchcock, mas é também um dos seus mais estranhos. O filme tem por base uma peça de Campbell Dixon e as obras de Somerset Maugham The Traitor e The Hairless Mexican, dois dos setes livros que contam as aventuras do agente secreto Ashenden. Maugham era, ele próprio, um espião ao serviço de Sua Majestade e as aventuras de Ashenden são muitas vezes o relato da vida do autor, a ponto de Winston Churchill ter, supostamente, recomendado que o autor queimasse os livros porque violavam o segredo de estado.

Para o papel de herói, Hitchcock escolheu o actor de teatro Sir John Gielgud, que, ao contrário de colegas como Laurence Olivier e Ralph Richardson, não tinha qualquer interesse na sétima arte. Foi apenas com o argumento de que Ashenden era um Hamlet moderno, que Hitchcock conseguiu que o actor participasse no filme. Gielgud acabou por detestar o seu personagem devido à sua ambiguidade e pelo facto de Hitchcock ter tornado o vilão, interpretado por Peter Lorre, mais interessante que o herói. Embora admirasse o estilo de realização de Hitchcock, Gielgud ressentiu-se pelo facto do realizador dar demasiada atenção, à frente e por detrás das câmaras, a Madeleine Carroll. A actriz interpreta, pela primeira vez, o que viria a ser a típica heroina de Hitchcock: uma loira fria, mas que aos poucos vai revelando os seus sentimentos. Os 4 Espiões foi a segunda colaboração de Carroll com o realizador e a actriz partiu pouco depois para Hollywood onde teve uma breve carreira.

Como referido, Gielgud não gostou que o vilão fosse mais interessante que o herói e isso muito se deve ao excelente trabalho de Peter Lorre. O actor alemão tornou-se uma estrela internacional ao interpretar um assassino de crianças em Matou!, de Fritz Lang, tendo abandonado a sua pátria em 1933, tal como grande parte da comunidade cinematográfica alemã. De acordo com Gielgud, Lorre era um viciado em morfina e um especialista em “roubar cenas”. O seu estilo de interpretação chocava com a descrição e o método de Gielgud e interpretou o seu papel de tal forma que o vilão representa o lado negro do herói.

Embora os seus filmes nunca tenham tido um cariz marcadamente político, Os 4 Espiões é o terceiro filme de Hitchcock em que o vilão é identificadamente alemão. Este facto torna-se ainda mais curioso tendo em conta que Hitler era, nesta altura, visto como algo tolerável em Inglaterra e o nazismo alemão era bem visto em alguns sectores da sociedade inglesa. Hitchcock, tal como muitos outros artistas e ao contrário dos políticos, antecipou os tempos de guerra que se seguiriam.

Embora tenha tido algum sucesso junto do público, Os 4 Espiões não foi muito bem recebido junto da crítica, já que questionava o puritanismo e o heroísmo da guerra. A ambiguidade do herói e a descrição que Gielgud coloca na sua personagem contribuem também para o menor sucesso do filme. No entanto, Os 4 Espiões, estreado em Portugal a 7 de Janeiro de 1937, não deixa de ser um bom exemplo da cinematografia de Alfred Hitchcock, com diálogos inteligentes, cenas bem construídas e uma interpretação excelente de Peter Lorre. Como curiosidade final, refira-se que Os 4 Espiões é o único filme de Hitchcock em que o realizador não faz as suas famosas aparições em frente das câmaras.

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Secret Agent
Gaumont British Picture. Grã-Bertanha, 1936, 86 min., thriller.
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: Alma Reville, Charles Bennett , Ian Hay, Jesse Lasky Jr., baseado nos livros de Somerset Maugham e numa peça de Campbell Bennett.
Actores: John Gielgud, Peter Lorre, Madeleine Carroll, Robert Young, Percy Marmont, Florence Kahn

Durante a I Grande Guerra Mundial, um escritor de sucesso finge a sua morte e é lhe dado uma nova identidade pelos serviços secretos, que o enviam para a Suíça numa missão onde é acompanhado por uma esposa falsa e uma assassínio.

Texto de Rui Chambel
Foto: Dr. Macro

Pancho Villa e o Cinema

O cinema está recheado de histórias incríveis e nenhum outro período é tão fértil como o do cinema mudo. Uma dessas histórias é a do revolucionário mexicano Pancho Villa, que assinou um contracto com a Mutual Film Corporation para a venda dos direitos cinematográficos da revolução mexicana.

No início do século XX, o México era liderado pelo presidente Porfirio Diaz, cuja governação oprimia o povo e levou à insurreição em 1910. Uma das facções revolucionárias era comandada pelo general Pancho Villa, que dominava o norte do país e a fronteira com os Estados Unidos. Como excelente estratega que era, Villa, cujo nome verdadeiro era José Doroteo Arango Arámbula, cedo se apercebeu da importância dos meios de comunicação e utilizou-os para promover a sua imagem, nomeadamente nos Estados Unidos. É neste contexto que Villa assina um contracto, em 1914, com a Mutual para a cedência dos direitos cinematográficos das suas acções militares, no valor de 25 mil dólares mais parte dos lucros do filme.

Na época, a popularidade do cinema nos Estados Unidos crescia a cada dia que passava e todos os filmes eram poucos para um público ávido de novidades cinematográficas. A par de melodramas e comédias, os newsreels com imagens de guerra eram também bastante populares e, neste contexto, o contracto entre a empresa cinematográfica americana e o revolucionário mexicano surge naturalmente.

Ao longo dos anos, muitas histórias têm sido escritas sobre o contracto, nomeadamente sobre as suas “estranhas” cláusulas. Uma delas supostamente referiria que as batalhas apenas poderiam decorrer entre as 9h da manhã e as 16h da tarde, uma vez que era o período ideal para se filmar. Mais, seria o operador de câmara que, ao gritar “acção!”, daria início aos ataques de Villa. Outra história que chegou até aos nossos dias é a da Mutual ter “vestido” Villa e os seus homens com guarda-roupa de filmes, já que os trajes dos mexicanos não tinham impacto cinematográfico suficiente. Estas histórias são isso mesmo e o único exemplar existente do contracto (que se encontra num museu no México) nada refere sobre estas cláusulas.

O que se sabe verdadeiramente é que as condições de filmagem não foram fáceis e o actor e realizador Raoul Walsh (A Pista dos Gigantes), que a Mutual enviou para o México, viu-se obrigado a encenar as cenas de batalha, utilizando os próprios guerreiros de Villa. No entanto, nem assim a Mutual ficou muito entusiasmada com as imagens que chegavam do México. Uma vez que as imagens não eram muito diferentes do que as conseguidas noutras guerras sem contrato, a empresa alterou a sua estratégia e decidiu produzir um filme de ficção sobre a vida de Pancho Villa (The Life of General Villa) e onde foram incorporadas as imagens já filmadas. Com as novas novas indicações da Mutual, Walsh regressou a Los Angeles, onde completou o filme com cenas rodadas em estúdio e interpretou um jovem Pancho Villa.

The Life of General Villa, que está dado como perdido, estreou em Nova Iorque no dia 14 de Maio de 1914 e foi bem recebido, quer pela crítica, quer pelo público. No entanto, é referido como um banal melodrama, que vale mais pela sua perspectiva histórica do que pela sua mais-valia artística.

Texto de Rui Chambel
Foto: Britannica.com

O Dia em que a Terra Parou (1951)

O filme O Dia em que a Terra Parou nasceu da história Farewell to the Master que Harry Bates publicou em 1940 na então conhecida revista de ficção científica Astounding Science Fiction. Numa altura em que a ficção-científica era levada pouco a sério (até ai os melhores exemplos do género eram Metropolis, Things to Come e algumas séries para as matines de sábado como a do Flash Gordon), A 20th Century Fox interessou-se pela história e adquiriu-a com o objectivo de produzir um filme de qualidade.

A escolha do realizador é um bom exemplo da seriedade com que o estúdio encarou o filme e coube a Robert Wise, então com 37 anos, liderar o projecto. Wise começou a sua carreira cinematográfica como técnico de som com apenas 20 anos, mas foi como técnico de montagem que a sua carreira começou a ganhar forma, nomeadamente como responsável por dois filmes de Orson Welles: O Mundo a seus Pés e O Quarto Mandamento. Em 1944 realiza o seu primeiro filme (Mademoiselle Fifi) e dá o mais importante passo de uma carreira que se estendeu por mais de 60 filmes, entre os quais West Side Story - Amor sem Barreiras, Musica no Coração, O Caminho das Estrelas, entre outros. Numa entrevista, Wise revelou que o que o atraiu para O Dia em que a Terra Parou, foi o facto de o extra-terrestre não ser maléfico e a história de ficção-científica ser passada na terra, o que lhe conferia um maior realismo.

Para o papel principal, Wise pretendia Claude Rains, o Capitão Louis Renault de Casablanca, mas o responsável da Fox, Darryl Zanuck, tinha visto Michael Rennie numa peça em Londres e considerou que uma cara desconhecida traria outra dimensão ao personagem Klaatu.

Muito embora o seu cepticismo inicial, Patricia Neal foi a escolhida para a principal personagem feminina e a sua interpretação é bastante convincente. Na sua autobiografia, Neal considera O Dia em que a Terra Parou o melhor filme de ficção-científica algumas vez feito, mas revela que teve dificuldade em manter uma cara séria durante as filmagens e muitas vezes teve de morder os lábios para não se rir.

Devido aos seus 2,2 metros de altura, a escolha para desempenhar o papel do robot Gort recaiu em Lock Martin, porteiro do famoso cinema chinês em Los Angeles. Muito embora a altura de Martin, foi necessário construir uma estátua gigante do robot para as cenas onde era preciso enfatizar a sua dimensão. Construída à base de fibra de vidro, a estátua difere do fato de látex utilizado por Martin e durante o filme é possível ver as diferenças entre ambos.

O robot e nave espacial são da responsabilidade de Lyle Wheeler e Addison Herh, que os conceberam de uma forma linear e de forma a enfatizar a racionalidade e “clareza de visão” da raça extraterrestre, em contraponto com a “confusão” existente no planeta terra.

Para a banda sonora do filme a escolha recaiu no temperamental Bernard Herrmann (Psycho e Taxi Driver) que optou por música electrónica à base de sons experimentais e que viria a tornar-se uma referência neste tipo de género cinematográfico.

Produzido em plena guerra-fria com um orçamento de 950 mil dólares, O Dia em que a Terra Parou estreou em Setembro de 1951 e a sua mensagem contra o comunismo e guerra nuclear desde cedo foi assumida pelos produtores. Devido à cena em que Klaatu é ressuscitado e ao facto de este escolher o nome Carpenter (Carpinteiro) quando decide conhecer melhor o planeta terra, muitos vêem também no filme uma mensagem religiosa, mas esta nunca foi um objectivo dos responsáveis.

O conjunto das suas partes faz de O Dia em que a Terra Parou um bom filme cuja mensagem politica e social se mantém tão actual como em 1951 (exemplar a crítica ao papel das Nações Unidas).

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The Day the Earth Stood Still
20th Century Fox, Estados Unidos, 1951, 92 min., ficção-científica
Realizador: Robert Wise.
Argumento: Edmund H. North, baseado na história Farewell to the Master de Harry Bates.
Actores: Michael Rennie, Patricia Neal, Hugh Marlowe, Sam Jaffe, Billy Gray, Frances Bavier, Lock Martin, Drew Pearson, Frank Conroy, Edith Evanson, Tyler McVey

Uma nave espacial aterra em Washington com a missão de avisar os habitantes da terra em desistirem das guerras ou serão destruídos.

Texto de Rui Chambel
Foto: 100scifimovies.com

Quem é Allen Smithee?

Allen Smithee é um pseudónimo utilizado por realizadores que desejavam ver o seu nome retirado de um filme. O nome, instituído pela Associação de Realizadores da América (Director Guild of America – DGA), apenas podia ser utilizado quando o realizador conseguia provar, perante a DGA, de que que tinha perdido o controlo criativo do filme, muitas vezes devido à interferência dos produtores. O realizador era obrigado a manter a razão da discórdia em segredo e a utilização do pseudónimo não podia ser utilizado para esconder falhanços comerciais de um filme.

O nome foi utilizado pela primeira vez no filme de 1969 A Morte de um Pistoleiro (foto), cujo primeiro realizador (Robert Totten) foi substituído por Don Siegel. Ambos os realizadores ficaram insatisfeitos com o resultado final e nem um nem outro quis o seu nome associado ao filme. O primeiro nome proposto para constar na ficha técnica foi Al Smith, mas já existia um realizador registado na DGA com esse nome, tendo sido decidido o nome Allen Smithee. Curiosamente, o filme revelou-se um sucesso, incluindo junto dos críticos que elogiaram o trabalho de Allen Smithee.

Em 1997, Joe Eszterhas pegou no nome e escreveu o filme An Allen Smithee Film, que conta a história de um realizador desiludido com um filme e procura retirar o seu nome da ficha técnica, mas não consegue porque o seu nome é… Allen Smithee. O filme revelou-se um verdadeiro fiasco e a má publicidade associada (ajudada pelo facto de o realizador Arthur Hiller ter o utilizado o pseudónimo Allen Smithee) levou a DGA a terminar a utilização do nome. A partir de então a Associação decide caso a caso o pseudónimo a utilizar, como foi o caso do filme Supernova (2000), em que o realizador Walter Hill utilizou o pseudónimo Thomas Lee.

Texto de Rui Chambel

Alice Guy-Blache, Pioneira da Setima Arte

Alice Guy-Blaché

A história do cinema está cheia de figuras pioneiras, que os tempos esqueceram. Alice Guy-Blaché é uma dessas figuras e cujo contributo foi fundamental para o desenvolvimento do cinema enquanto arte.

Alice Guy nasceu a 1 de Julho de 1873, em Paris. Filha de pais franceses, que viviam no Chile, Alice viveu os seus primeiros anos com a avó, até os pais regressarem a França, onde viriam a morrer pouco tempo depois.

A nível profissional, Alice Guy começou a sua carreira como secretária de Leon Gaumont, que trabalhava para um fabricante de máquinas fotográficas. Quando o negócio deste entrou em dificuldades económicas, Gaumont, em conjunto com outras figuras, entre elas Gustave Eiffel, comprou o inventário da empresa e formou, em 1895, a Gaumont, que viria a ser uma das mais importantes empresas cinematográficas do mundo. Alice acompanhou Gaumont na nova empresa e como responsável pela produção o seu trabalho revelou-se inovador, nomeadamente na utilização de cor, de som, de efeitos especiais e no desenvolvimento da narrativa cinematográfica, cujo melhor exemplo é La Fée Aux Choux (1896), considerado o primeiro filme narrativo da história do cinema. Em 1906, Alice realiza dois outros marcos da sua carreira: La Vie du Christ, a sua primeira longa-metragem e um dos grandes blockbusters da época do cinema mudo, com 25 cenas e cerca de 300 figurantes, e La Fée Printemps, que utiliza efeitos especiais a cores.

Em 1907, Alice casa com Herbert Blaché, que, pouco depois, foi nomeado responsável de produção da Gaumont nos Estados Unidos. Alice acompanha o marido para os Estados Unidos e, após trabalharem juntos na Gaumont norte-americana, o casal decide formar a sua própria empresa: a Solax Company. Sediada em Nova Iorque, a Solax tornar-se-ia no maior estúdio pré-Hollywood e onde Alice continuou o seu trabalho como directora artística, escrevendo e realizando grande parte da produção da empresa.

Em 1922, Alice Guy-Blaché realiza Tarnished Reputations, que viria a ser o seu último filme e dois anos depois divorcia-se, regressando a França. Ai tenta retomar a sua carreira, mas a dificuldade em provar o seu curriculum, já que poucos ou nenhum dos filmes da Gaumont sobreviveram, levam-na a escreve romances a partir de argumentos cinematográficos e a dar palestras sobre cinema. Esquecida durante décadas, Alice Guy-Blaché viu o seu trabalho reconhecido em 1955, quando foi condecorada pelo Governo Francês com a Legião de Honra. Nove anos mais tarde regressa os Estados Unidos para viver com uma das suas filhas, falecendo em 1968.

Com uma carreira de mais de 700 filmes, que abrangeram géneros tão diferentes como o drama, o western e as biografias, o trabalho de Alice Guy-Blaché permitiu o desenvolvimento do cinema, ajudando-o a transformar-se técnica e esteticamente.

Texto de Rui Chambel
Foto: www.msmagazine.com*

RKO Radio Pictures

Logotipo RKO

A RKO Radio Pictures foi criada em 1928 pela Radio Corporation of America (RCA), cujo sistema de som em película (Photophone) tinha sido preterido pelo da rival Western Electric (Vitaphone) pelos estúdios de Hollywood. Como resposta à Vitaphone, a RCA adquiriu a rede de salas de cinema Keith-Albee-Orpheum e a produtora Film Booking Office of America (FBO), criando a RKO com o objectivo de produzir apenas filmes sonoros.

Os primeiros anos da empresa, dominados pelos musicais e comédias cheias de diálogos, foram de algum sucesso, mas os realizadores que trabalhavam para o estúdio não estavam satisfeitos com as condições existentes e, em 1931, a RKO adquiriu a Pathé americana, cujos estúdios e rede de distribuição permitiu aumentar a capacidade de produção e distribuição da RKO. Nesse mesmo ano David O. Selznick torna-se o responsável pela produção do estúdio e cria uma unidade em que produtores independentes são contratados para produzir um determinado número de filmes, sem qualquer interferência do estúdio, mas em que este dividia os custos de produção em troca dos direitos de distribuição. A estratégia de Selznick passava também por realizar grandes estreias das suas maiores produções e, assim, foi responsável pela construção da maior sala de cinema do mundo, o Radio City Musical Hall, em Nova Iorque. A sala possibilitava a estreia das maiores produções do estúdio, rodeados de grande publicidade e notoriedade. Infelizmente a estratégia revelou-se bastante cara: quer para o estúdio, que fechou o ano de 1932 com 10 milhões de dólares de prejuízo, quer para Selznick, que foi despedido.

Merian C. Cooper, um antigo colaborador de Selznick, torna-se o novo responsável pela produção da RKO e o estúdio passa a apostar na produção de filmes de menor orçamento. No entanto, um dos primeiros filmes a sair do estúdio nesta altura é King Kong (realizado pelo próprio Cooper), que estreia no Radio City Music Hall rodeado de grande publicidade e torna-se um dos grandes sucessos do estúdio. Para além das suas próprias produções, a RKO distribuía ainda os filmes de Walt Disney (curtas e longas-metragens) e as produções de Samuel Goldwyn. Durante a década de 30, estão sob contracto do estúdio estrelas como Cary Grant, Irene Dunne, Douglas Fairbanks, Jr., Fred Astaire, Ginger Rogers, Katharine Hepburn, entre outros, e embora a RKO não tivesse os recursos financeiros dos restantes estúdios, os seus filmes eram conhecidos pelo seu estilo e desenho de produção.

No final da década de 1930 e já sob a orientação de George Schaefer, a RKO volta a apostar na qualidade e do estúdio saem filmes como As Duas Feras e O Mundo a Seus Pés, este considerado como o melhor filme de todos os tempos. Mas a política de filmes de prestigio não teve grande sucesso e, a partir de 1942 já sob o comando de Charles Korner, a RKO aposta em secções duplas e em filmes B. Após a morte de Korner, o seu sucessor, Dore Schary, reaviva algumas práticas de Selznick e volta a apostar em co-produções com produtores independentes, tais como: Do Céu Caiu uma Estrela, Os Melhores Anos das Nossas Vidas, Forte Apache, Os Dominadores, entre outros.

Ao contrário dos restantes estúdios de Hollywood, em que cada um tinha um género porque era conhecido, a RKO não era sinónimo de nenhum género específico. No entanto, é possível identificar a marca do estúdio num conjunto de filmes que marcaram a história do cinema durante esta década. Reflexo dos filmes de baixo orçamento que o estúdio produziu durante a década de 40, o film noir tornou-se num importante marco da RKO e os actores que estavam sob seu contracto tornaram-se os mais conhecidos do género: Robert Mitchum, Jane Russell, Robert Ryan, Audrey Totter, George Raft, entre outros.

Em 1948, o milionário Howard Hughes adquire parte do capital da RKO por pouco menos de 9 milhões de dólares e o estúdio, ao contrário do que seria de esperar, entra num período conturbado: para além de despedir 2/3 dos empregados do estúdio, as psicoses de Hughes fazem parar a produção durante seis meses, enquanto o milionário investiga o passado político dos restantes empregados. Uma vez retomada a produção, Hughes interferia nas filmagens e ordenava a rodagem de novas cenas sempre que considerava que os actores, em particulares as mulheres, não sobressaíam ou se a mensagem anticomunista não era suficientemente explicita.

A ordem do tribunal norte-americano em obrigar os estúdios de Hollywood a vender as suas salas de cinema, afectou também a RKO, que viu a sua frágil situação financeira piorar. Para agravar a situação ainda mais, Hughes dava mais atenção aos seus interesses aeronáuticos do que ao estúdio (o milionário detinha fábricas de aviões e era dono da transportadora aérea TWA) e foi alvo de diversos processos judiciais por má gestão. Aborrecido com estes fait-divers, Hughes acabou por comprar a maioria das acções da RKO por 24 milhões de dólares e, em 1954, tornou-se na primeira pessoa a ser dona de uma das majors de Hollywood. Seis meses depois, Hughes vende inesperadamente a RKO à empresa de pneus General Tire and Rubber Company por 25 milhões de dólares, mantendo apenas os direitos sobre os filmes que produziu pessoalmente.

O interesse da General Tire era, não tanto nos estúdios, mas nos filmes da RKO, já que as estações de televisão, inclusive as da General Tire, necessitavam de conteúdos para a sua programação. Sabendo disso, a General Tire logo vendeu os direitos dos cerca de 700 filmes da RKO por 15 milhões de dólares, cujo preço revelava a importância deste tipo de conteúdo. Este negócio permitiu que grande parte dos filmes da RKO, incluindo clássicos como O Mundo a Seus Pés e Do Céu Caiu Uma Estrela, passasse regularmente na televisão e os filmes fossem redescobertos pelo público.

A General Tire ainda tentou gerir o estúdio, mas grande parte da produção resumia-se a remakes de sucessos anteriores ou filmes B. Anos de má gestão levaram realizadores e produtores a perderem confiança no estúdio e Walt Disney e Samuel Goldwyn acabaram por abandonar o estúdio. Perante este cenário, a General Tire decide fechar a RKO em Janeiro de 1957 e vender os estúdios à produtora de televisão Desilu Productions, que em 1967 viria a ser comprada pela Paramount Pictures e os transformou na Paramount Television. Com o fecho da produção, os filmes ainda por estrear da RKO foram distribuídos, entre 1957 e 1959, por diversos estúdios, entre eles a Warner Bros., a Metro-Goldwyn-Mayer e a Universal Pictures, mas sempre mantendo a indicação de que os direitos de autor pertenciam à RKO.

O nome do estúdio permaneceu durante os anos, já que a RKO General era a dominação da empresa subsidiária da General Tyres para os meios de comunicação e que detinha uma cadeia de rádios. Em 1989, a General Tyres foi comprada pela alemã Continental Tire, que vendeu a RKO General à empresária Dina Merrill e ao seu marido, o produtor Ted Hartley. Os novos donos, que detêm todos os direitos sobre os logótipos, marcas, argumentos, histórias, remakes e sequelas dos filmes da RKO Radio Pictures, ressuscitam a produtora, produzindo remakes de sucessos antigos e peças de teatro. Embora ainda hoje se mantenha activa, a actual RKO Pictures é uma sombra dos seus tempos áureos, mas a sua história é parte integrante da sétima arte.

Texto de Rui Chambel
Foto: www.rko.com