"Coisa de Rico" é só uma vidinha simples e confortável
September 23, 2025•624 words
Em meados de 2021, o UOL fazia uma publicação sobre o código dos ricos no Brasil e, de maneira inocente, fui impactado pelo vídeo postado pelo antropólogo Michel Alcoforado no YouTube, no qual, de forma breve, ele e sua colega de profissão, Valeria Brandini, ofereceram uma degustação do que difere os ricos tradicionais dos emergentes.
Eis que, em 2025, após ler "A Boba da Corte", da Tati Bernardi, livro que zomba da elite dominante do Brasil sem qualquer pudor, me defronto com a recente obra de Michel, que torna público o resultado de seu doutorado, envolvendo esses queridos brasileiros, através do livro "Coisa de Rico: A vida dos endinheirados brasileiros".
Com uma série de recortes de sua pesquisa, o autor monta o que pode ser parte dos códigos subliminares dos ricos, super-ricos e emergentes do Brasil.
Vale falar algumas coisas sobre os ricos, e isso é de se revoltar:
O natural para essa pesquisa seria fazê-la tendo como universo 1% da população mais rica do Brasil; porém, a linha de corte aqui seria um salário/rendimento mensal de R$ 28 mil.
Se, em algum momento da história, o Réveillon de Copacabana fosse realizado apenas para esse público, seria, no mínimo, divertido ver a família que saiu ali do Catete, que tem o apartamento de dois quartos financiado até 2035, carregando um cooler na mão, se encontrando com a família que veio do Jardim Pernambuco, no Leblon, improvisou um pouso com seu helicóptero no Copacabana Palace e se sentou em sua tenda climatizada com 20 empregados a seu dispor.
Sim! Essa é a cena possível se juntarmos o 1% mais rico do país. Temos tanta desigualdade que seria possível fazer uma nova escala só dentro dessa faixa.
Por esse motivo, é necessário olhar para a fatia de 0,1%, os que têm patrimônio superior a R$ 25 milhões, e, por fim, para a belíssima fatia de 0,01%, com patrimônio superior a R$ 150 milhões e rendimento mensal de R$ 300 mil.
E é essa desigualdade e esse jeito “simples” de viver a vida que chega a causar uma pequena crise de ansiedade ao ler alguns trechos.
Uma das coisas que eu, “de fora”, não fazia ideia da existência é o Livro da Sociedade Brasileira (um Who's Who"), de Lourdes Catão e Helena Gondin. Uma agenda de contatos da aristocracia brasileira com edições de 1950 a 2014, que era impressa e distribuída apenas aos nomes que estavam no próprio livro. Uma forma de a alta sociedade ter os contatos atualizados e saber quais eram as famílias realmente importantes para se conviver, segundo o modo de vida dos ricos tradicionais.
Entender que os super-ricos querem a baixa intervenção do estado em suas negociações e empreendimentos; contudo, quando é para resolver as mazelas sociais, deixam a cargo dessa entidade. E, através da leitura, criei uma fala imaginária deles: “não mexe no meu queijo, mas cuida aí da cozinha pra não deixar nenhum rato entrar.”
O mais importante é a lembrança da classe a que pertencemos!
Em qualquer roda social dos super-ricos haverá pequenos testes para saber se se pode ou não participar da brincadeira. Esses testes podem ser sobre conversas de hobbies e disponibilidade de agenda; a capacidade de entender códigos e nomes que são ditos sem a necessidade de informações complementares; e até mesmo a capacidade de imaginar o que fazer no próximo final de semana. Se a dúvida não estiver entre esquiar na Suíça ou ir ao vernissage do primo do amigo em Nova York, é de se pensar se o poupançudo da Caixa tem tanto dinheiro assim.
Alcoforado, Michel (1986-)
Coisa de rico: A vida dos endinheirados brasileiros / Michel Alcoforado. - I. ed - São Paulo: Todavia, 2025
Leitura realizada em Setembro/2025
Rio de Janeiro