TURN ME ON. Michael Tyburski. Estados Unidos, 2024

Em um cenário distópico, pessoas escolhem fazer parte de uma sociedade onde não há sofrimento, e o contentamento (teórico) está presente na maior parte do tempo.

O enredo do filme não traz grandes novidades: alguém passou por um trauma ou perda muito forte e escolhe, por vontade própria, ir para um lugar onde deixará seu passado para trás. Lá, a promessa é de dias bons e vida equilibrada. Para isso, as pessoas precisam tomar vitaminas matinais que inibem sentimentos e emoções específicas. Ganham um companheiro de vida escolhido pelo sistema e passam a trabalhar na própria empresa que fabrica as vitaminas.

Sem o senso crítico ativado, vivem tediosamente seus dias.

No café da manhã, um smoothie sem gosto. Na TV, animações de 20 segundos que se repetem em loop infinito. O tempo inteiro, todos perguntam se o outro está contente, e sempre recebem a mesma resposta: sim, certamente estou contente.

Até que Joy, a protagonista, para de tomar as vitaminas.
E tudo começa a mudar.
Ela sente tédio, alegria, prazer, tristeza, enfim, sente. Antes, estava anestesiada, servindo apenas para fazer aquela sociedade operar e crescer. Um lugar de pessoas apáticas à vida, mas sempre produtivas no trabalho.

Essas ideias flertam com tantas outras obras que é impossível não lembrar de Ruptura (Apple TV) e O Doador de Memórias (2014). Confesso que Ruptura se aproxima mais, mas o modo como os personagens “despertam” é bem semelhante.

Acho curioso como histórias assim continuam sendo contadas há tanto tempo, e, mesmo assim, pouco mudamos na prática. Isso me faz pensar que ainda existem muitas pessoas (e me incluo aqui, em alguns aspectos) que vivem anestesiadas, apenas sobrevivendo, sem descobrir a pulsão da vida.

O filme, no fundo, provoca uma reflexão incômoda: o cenário ideal para qualquer sociedade que queira manter o controle é aquele em que as pessoas são padronizadas. Falam de forma polida, não discutem, não criam, não questionam. No fim, são apenas peças de um sistema que precisa produzir e consumir, para que poucos se apropriem da riqueza gerada.

Questionar o status quo traz movimento. É caótico.
Mas é justamente no caos que encontramos prazer.
Alguns chamam isso de viver o presente.

E é sobre o corpo também.
Sobre como sentir é preciso para que o caos se monte.

Sentir o corpo pode dar medo, porque há sensações que a gente nunca imaginou viver. O tremor nas pernas, o coração acelerado, tudo isso nos tira da inércia. Transforma energia interna em ação. Idealmente, para o bem da existência (mas vamos pensar no cenário ideal).

Esse movimento, esse esforço, é o que desperta a criatividade. A vontade de viver mais. De viver o agora.

O foda disso tudo é que, enquanto queremos viver e nos movimentar, existe um sistema que nos quer parados, pálidos e produtivos.

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**TURN ME ON.** Direção: Michael Tyburski. Produção: Jennifer Semler, Joshua Astrachan, Michael Tyburski. Estados Unidos: FilmNation Entertainment, 2024.

Assistido no Festival do Rio em Outubro de 2025.

Rio de Janeiro

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