Desculpa o Transtorno: Tati Bernardi e Christian Dunker
October 13, 2025•911 words
Em um teatro com capacidade para 800 pessoas, quase lotado, Tati Bernardi e Christian Dunker sobem ao palco de maneira singela, caminhando calmamente até as duas poltronas que os aguardavam no centro do palco.
Com sua capacidade inigualável de misturar acidez e doçura, Tati apresenta seu companheiro de palco e logo explica como será a dinâmica da noite: em um formato muito semelhante ao de uma supervisão da terapia analítica, ela fará a leitura de casos de pessoas externas que foram enviados à dupla e, em seguida, os dois discutirão a respeito daquele hipotético paciente.
Histórias que misturam humor e profundidade são apresentadas de modo que o espectador fica em dúvida se dá gargalhadas ou se lacrimeja ao perceber que aquele caso é muito semelhante a situações vividas em sua própria vida.
É gostoso ver que o debate é sempre conduzido por meio dos traços da psicanálise, muitas vezes parafraseando Freud, que, mesmo após mais de 80 anos de sua morte, ainda consegue manter suas teorias contemporâneas a qualquer momento da história.
Eu, um mero analisando, sigo o fluxo das discussões e absorvo, à minha maneira, cada situação à qual os sujeitos estão submetidos. Penso como é curioso que, normalmente, as pessoas problematizam suas relações humanas, sejam elas românticas, familiares, de trabalho ou outras. As problemáticas raramente se mostram existentes nos casos do próprio sujeito consigo mesmo; em toda problemática há sempre a aparição de um outro.
O sujeito que busca o gozo e o prazer amoroso na relação, muitas vezes, esquece de se colocar na posição de quem brinca e, sim, de quem performa. Com isso, suas neuroses e obsessões vêm à tona com mais facilidade, e o prazer não é alcançado de maneira agradável, dando lugar aos seus monstros.
Pensemos que o gozo acontece (quase sempre) no inconsciente e transborda em prazer em alguma esfera da vida. Quais são as ações que nos dão prazer sem que percebamos? O que faz com que uma pessoa permaneça em um relacionamento tóxico mesmo sabendo que aquilo lhe faz mal?
Talvez ainda haja algo que a puxe para esse relacionamento, algum tipo de prazer escondido, mesmo que ele apareça em poucos instantes da vida do sujeito.
Pensando em relações saudáveis, como podemos buscar no outro um parque de diversões? Como podemos entender a relação sexual como um momento em que podemos brincar e fantasiar?
Falando em fantasia, um tema muito presente nas pessoas, ela é, talvez, necessária. A fantasia nasce da mente criativa da criança e permanece em seu interior enquanto essa criança puder viver. Quisera eu que todas as crianças internas pudessem se manifestar, mas, em nosso sistema patriarcal, machista e capitalista, isso normalmente é visto como imaturidade ou fraqueza.
Sim, fraqueza. O bebê humano é um dos poucos seres que, ao nascer, precisa de supervisão 24 horas por dia para sobreviver. Ouso dizer que, até os primeiros dois anos de idade, essa necessidade se faz presente.
Percebemos que, mesmo uma pessoa adulta, pode cair na armadilha de viver sua criança de modo imaturo. Deixe sua criança transbordar de maneira saudável, e não de modo que ela apenas esteja compensando alguma situação não resolvida de sua vida.
Já que o tema patriarcal surgiu brevemente, vale lembrar como pode ser interpretada a “falta” do pênis na mulher. Há quem veja, de maneira inconsciente (e enganosa), essa ausência do órgão externo como um tipo de castração, em que a mulher estaria sempre devendo algo em relação ao homem.
Até mesmo sob uma ótica criacionista, como teria sido o momento em que o grandioso deus, ao olhar para Adão, sua perfeita imagem e semelhança, pensou: “O que posso mudar nesse corpo tão perfeito para que eu possa dar à minha imagem uma forma de prazer?”
Então, surge a brilhante ideia de tirar do homem seu membro mais viçoso e criar um ser que é quase perfeito à sua imagem e semelhança, mas ao qual falta algo para que seja completo.
What? Quanto mais penso nisso tudo, mais rejeito toda a teoria criada pela instituição católica para doutrinar seus povos e manter a dominação do homem padrão, viril e corajoso.
Mas não fico muito tempo nessa pauta. Vamos pensar em formas de amar: Lulu Santos já dizia: “consideramos justa toda forma de amor”.
E quando essa forma de amar e acreditar em um mundo melhor para um filho recém-nascido é entregá-lo para adoção? Confesso que tenho pouco contato com esse assunto, e me surpreendo ao pensar nessa hipótese; mas, uma vez vista, ela me faz aceitar mais essa forma de amar.
Debatendo um pouco sobre o amor romântico, fala-se também sobre as paixões à distância e os amores de verão.
Ah, que delícia é o amor de verão! Ele acontece de maneira rápida, curta e intensa. Sem dar tempo de os envolvidos mostrarem suas sombras, a luz que surge entre os apaixonados é tanta que oferece muito insumo para que, quando uma das partes se vai, a outra possa fantasiar e imaginar como seria aquela relação perfeita, e como os dois seriam felizes para sempre.
Infelizmente, o mundo real impede que essa fantasia possa sequer ser testada, o que a torna ainda mais apaixonante.
Para que a gente não saia desse debate sem falar sobre isso, trago uma breve fala de Tati ao responder a um espectador que questionou sobre os comportamentos da direita e da esquerda:
“Só conheço extremismo radical chato na direita. A esquerda, seja qual for o nível, só conheço gente legal.”