O AGENTE SECRETO. Kleber Mendonça Filho. Brasil, 2025

Mais um presente fantástico que o cinema brasileiro entrega para o Mundo.

Ver Tânia Maria novamente nas telas, agora como Dona Sebastiana, e com belíssimas falas é um deleite para o sorriso do ser humano.

Os minutos inicias do filme trazem o grau de barbárie que o país se encontrava à época. Uma sequencia que deixa o espectador instigado com alguns pontos e sem entender outros, e isso é maravilhoso! Por várias vezes o filme oferece elementos para deixar a cabeça do sujeito maluca imaginando coisas, e o ritmo que o filme revela o que é necessário funciona muito bem!

Wagner Moura, está incrível neste papel! Ele consegue dosar bem o nível de emoção em cada cena, sem precisar apelar para recursos simplistas, para demonstrar o que esse personagem mega complexo está sentindo.

(Spoiler: Ele era um cara progressista, militante, relevante para sua comunidade, e se vê numa posição de impotência, sendo abafado pelo sistema vigente, sem conseguir rever sua companheira e sem conseguir garantir segurança para seu filho. Ainda assim é possível encontrar um sopro de esperança e vida em seu olhar.)

Carlos Francisco no papel de Seu Alexandre é o retrato de afeto: ele entende que o bem é feito no nosso "nanocosmos". O sistema não vai mudar, as pessoas não serão punidas, ainda assim ele vislumbra a esperança de uma vida mais agradável para sua família.

Todos os personagens do condomínio tem sua posição e funciona bem. O destaque é claro para Dona Sebastiana, essa mulher divertida e de bem com a vida, mesmo tendo noção de todas as turbulências que ela já passou. Ela encanta com seu visual caricato e é impossível sair do filme sem querer beber uma cerveja com essa senhora.

Uma pena que Maria Fernanda Cândido tenha pouco tempo de tela, é uma peça importante, e com certeza eu gostaria de ver uma continuação do filme tendo ela como protagonista. Onde é possível explorar suas motivações e seu papel político. Além de rever os demais personagens.

O delegado Euclides é um excelente personagem da história do país até os dias atuais, e é muito bem representado por seu ator Robério Diógenes.

O longa é recheado de referências: os enquadramentos inspirados em Kubrick, que já vimos em Bacurau, mas aqui é feito de maneira cirúrgica; as placas de ruas com as marcas reconhecidas mundialmente, dando um ar de familiaridade ao gringo que estiver votando para o filme; dentre outras.

Em algumas cenas há uma execução de um "toque na quarta parede", isso mesmo, não chega a quebrar mas o diretor faz isso de maneira exata para deixar o filme mais fluido, onde qualquer pessoa pode acompanhá-lo sem problemas e sem subestimar a capacidade do espectador.

A trilha sonora é outro presente do filme, ela acompanha muito bem as cenas e as musicas que estão lá, só estão porque na cena ela também existe.

Há dois ou três pequenos deslizes de montagem e duas atuações que deixam a desejar, mas fora isso é um filmão!

Vendo o histórico de filmes de Kleber Mendonça Filho pode-se dizer que esse é uma comunhão de suas obras anteriores, onde ele consegue expor para o Mundo uma realidade cruel, de maneira inovadora e pra sair do cinema reverberando por muitas horas.

Comentário adicional sobre a última sequencia:

Após algumas semanas da estreia e a repercussão entre as pessoas, muito se fala sobre como o final do filme pode ter sido um anticlímax, mas acho que precisamos fazer alguns pensamentos a respeito disso:

  • Sim, há um abismo na experiência da Laura Lufési e Wagner Moura, mas precisamos considerar que Laura é uma atriz ainda em desenvolvimento, assim como a própria Tânia Maria, e isso é mais uma beleza da direção de Kleber Mendonça Filho, oferecendo papeis importantes a artistas que por mais que precisam ainda de um ou outro ajuste, entregam muita dedicação e carinho na obra;
  • Durante o segundo ato Fernando falou para o pai que já estava começando a esquecer sua mãe por conta da ausência dela, e o mesmo acontece em relação a morte de Marcelo/Armando. O filho tem as lembranças que os avós deixaram para ele. Toda a história de perseguição e ativismo dos pais não fazem parte da história de Fernando, ou seja, a personagem Flavia tem uma relação com Marcelo muito mais completa que Fernando, e isso é deixado muito claro no filme.
  • Sei que em alguns momentos do filme ele fica verborrágico demais para fazer as pessoas entenderem, e aqui temos um ponto que mesmo sendo verbalizado parte do público não consegue entender.

O Agente Secreto estará em cartaz nas salas de cinema do Brasil a partir de Novembro de 2025.

The Movie Database (TMDB)

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