ABOUT TIME. Richard Curtis. Reino Unido, 2013

Disclaimer: Esta é uma crítica do filme que se enquadra nas minhas Teorias de Boteco (TdB).
Não se trata de uma leitura literal do filme, e sim simbólica, sob o meu olhar.

Depois de anos com esse filme na minha watchlist, eu me rendi e finalmente assisti ao tão elogiado Questão de Tempo.
Minha percepção, no entanto, saiu um pouco do convencional.

Do meu ponto de vista, o filme trata de como podemos viajar no tempo por meios próprios, acessando a mente a ponto de criar novas realidades, ainda que essas realidades só sejam "reais" para quem as cria. O chamado “mundo real” não sofre os efeitos das mudanças causadas nessas realidades mentais.

A família de Tim já nos mostra a capacidade que cada membro tem de se projetar em um mundo imaginário:

  • A família se reúne toda tarde, sem exceção, para tomar seu chá em frente ao mar. Essa prática, embora pareça um simples ritual cotidiano, pode ser vista como um momento de compartilhar o uso de algum psicoativo — talvez até derivados da cannabis. Eles estão sempre em um estado de alegria e vivacidade;
  • A mãe de Tim, que se chama Mary (e que, na minha teoria da conspiração, seria uma abreviação para “Marijuana”), é espirituosa e sempre convida seus visitantes, inclusive a nora, para tomar um chá nos momentos de nervosismo ou agitação;
  • O tio Desmond é a figura clássica de alguém que vive em um mundo paralelo, talvez por uso de psicodélicos ou psicoativos. Ele nunca está de mau humor e não consegue acompanhar uma conversa inteira sem fazer perguntas. Ao se despedir do sobrinho, entrega pequenas moedinhas e diz para usá-las com cautela, a forma como ele as entrega lembra muito a de alguém que compartilha materiais psicodélicos;
  • A irmã Kit Kat não apenas carrega o apelido de uma droga ilícita, como também enfrenta problemas de adicção. Em um momento específico, Tim chega com a namorada, e Kit Kat imediatamente pergunta “Onde está a Mary?” e corre para abraçá-la com a mesma euforia de quem encontra uma substância desejada;
  • O pai de Tim é um clássico bon vivant, aproveitando a vida com outra percepção do tempo, e é o grande responsável por ensinar ao filho como se “viaja” no tempo;
  • Mary, a companheira de Tim, é uma moça um pouco distraída, porém muito carismática. Curiosamente, tem o mesmo nome da mãe dele. Em determinado momento, o pai de Tim até sinaliza que ela é “a Mary do Tim”, assim como ele tem a dele. Ela frequentemente usa roupas vermelhas simbolizando o amor romântico na vida de Tim.

Diante desses indícios, há outros pontos que reforçam essa leitura alternativa:

  • O arco de Mary é pouco desenvolvido; ela praticamente não evolui ao longo da história. É apresentada como a companheira perfeita para Tim, com características pouco aprofundadas;
  • O pai de Tim deixa claro que os atos realizados no passado nem sempre são compreendidos no presente — o famoso efeito borboleta fica em segundo plano;
  • O uso muito bem colocado da cor verde em momentos que poderiam estar fumando: sempre tem algum elemento verde cannabis presente;
  • A ideia da viagem no tempo serve principalmente para que os personagens possam reviver momentos marcantes e, às vezes, alterá-los, não necessariamente para mudar o mundo, mas para moldar suas próprias memórias.

Claro que a mensagem final é belíssima: devemos aproveitar o tempo que temos, especialmente com as pessoas queridas.

Finalizando minha Teoria de Boteco, o que o pai de Tim ensina é, na verdade, a prática de revisitar momentos sob outra perspectiva e criar novas memórias a partir disso. Seja com o auxílio de um psicoativo ou não, trata-se de ir para um lugar isolado, entrar em estado meditativo e acessar seus próprios momentos.

Meu olhar, talvez enviesado, conclui que o filme mostra como, muitas vezes, o mundo real não sai como planejamos. Ainda assim, é sempre possível adaptar alguma coisa para ficarmos satisfeitos. E aqui, “satisfeito” se traduz como gratidão pelo tempo presente. O tempo segue a Teoria do Caos: estamos sempre vivendo para frente. Ainda assim, o tempo é uma grande ilusão: arbitramos eventos como marcadores e acabamos vivendo mais no futuro do que no presente. Dançar no tempo é conseguir aproveitar exatamente o instante a que estamos submetidos. Cada momento é verdadeiramente único, seja ele bom ou ruim aos nossos olhos, e nunca se repetirá.


About Time está disponível para streaming no Brasil através do Prime Video.

The Movie Database (TMDB)


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