LOVE. Gaspar Noé. França, 2015

O que é o amor?

Talvez seja um gesto, um abraço, uma leitura, um brigadeiro guardado para a pessoa querida ou até mesmo uma simples mensagem de bom dia. O amor tem várias formas de se manifestar e ser vivenciado no mundo, e uma hipótese que minha jornada até aqui indica é que, quando é verbalizado “eu te amo”, ele pode ser tudo, menos amor.

Quando pronunciamos essa frase, fazemos isso por algum motivo específico: seja para alimentar o ego, seja para confortar o coração da pessoa amada. Mas me parece que, quase sempre, é um subterfúgio para justificar o amor, e não para praticá-lo.

Outro aprendizado que esses 31 anos de vida me trouxeram é que, para sentir o amor, é necessário acalmar a mente. Caso ela esteja em conflito, ou até mesmo muito agitada, o amor será percebido em menor intensidade. Sendo assim, para que o primeiro sinta, o outro precisa movimentar e agitar muita energia.

Em Love, somos impactados por diversas formas com que o amor se manifesta na vida de Murphy e Electra.

Sabemos que o relacionamento deles não é dos mais saudáveis, mas vamos tentar encontrar algumas pistas dos complexos de cada um:

  • Murphy afirma que Electra tem daddy issues; ainda assim, diz repetidas vezes à companheira: “você não será uma boa mãe”. O que será que Murphy buscava em Electra, senão traços maternos que lhe faltaram na infância?
  • Electra discorda da preocupação exagerada de Murphy a respeito do contato dela com Noé, situação que, posteriormente, se mostra o contrário;
  • Os dois sempre buscam acolhimento após uma briga. Mesmo nas discussões mais feias, ao final se tocam. É como se precisassem da dor para serem levados de volta ao amor.

E por aí vai...

A cena inicial do filme é um deleite para os olhos do público.

As cenas de sexo não são focadas apenas no corpo feminino, mas também no masculino. Mesmo com o viés falocêntrico e os corpos padronizados, é bom sair do convencional ao qual estamos habituados.

Esse filme merecia algum prêmio de fotografia e direção. A montagem e a produção dos ambientes são incríveis, comunicando de maneira brilhante o sentimento e a aflição de cada momento.

A construção dos personagens é outro ponto forte. Não há um mocinho e um vilão nessa história. Os protagonistas possuem camadas e verdades construídas a partir de suas experiências de vida. É impossível não achar contraditório o que fazem, mas, enfim, isso é a vida: somos uma grande contradição.

Love é um filme instigante, perturbador e cheio de movimento.
É a história de um casal conturbado, mas muito plausível nos tempos atuais.

Para mim, Love é uma espécie de retrato de uma parcela dos relacionamentos contemporâneos.

Em tempos de amores líquidos, a toxicidade pode ser (erroneamente) encarada como manifestação de afeto.


Love está disponível para streaming na Reserva Imovision, sendo possível assinar pelo Prime Video.

The Movie Database (TMDB)

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