SINNERS. Ryan Coogler. Estados Unidos, 2025.

Um acontecimento cinematográfico!

Esse filme está equiparado ao nível de terror psicológico de Incêndios de 2011.

Antes de começar a rasgação de seda para Sinners, vale lembrar que ele é um filme norte-americano que tenta ser plural e, por isso, assume riscos muito bem mapeados para não desagradar ao público. Há um uso excessivo de armas de fogo, e armamentos de guerra que não seriam tão necessários, além de uma certa apelação para o romance, sempre apresentada de maneira esteticamente bonita.

Dito isso, vamos à celebração do filme!

Eu não sabia que se tratava de um filme com vampiros, e acho que isso pode, tranquilamente, ser desprezado na sinopse. Os vampiros aqui estão longe de serem protagonistas; funcionam como uma metáfora extremamente bem colocada. Podem ser vistos como o “mal” ou até mesmo como o próprio sistema capitalista, aliado à branquitude, tratando as pessoas negras do enredo como simples peças utilitárias para o lazer de uma elite branca.
Vi algumas críticas de pessoas tentando entender toda a dinâmica do filme. Aqui vai uma resposta talvez frustrante para alguns: não há explicação cartesiana para a relação entre os personagens. A quantidade de ambiguidade e metalinguagem utilizada torna impossível listar pontos ou explicar tudo racionalmente. No fim, trata-se de entender o fluxo da vida e como nos conectamos com ele.

Em diversos momentos, o filme parece apresentar “erros” de montagem: um personagem estava ali e, de repente, não está mais. Por um instante, você acredita que se trata de uma falha técnica, mas, ao final, entende que é uma representação simbiótica dos acontecimentos da vida.

Sem entrar em explicações detalhadas, há uma relação brilhante entre três caminhos possíveis para a trajetória de um personagem:

  • A religião e a utilização do dom a serviço de um deus;
  • O blues e a música enquanto cultura transcendental de um povo;
  • A captura pelos vampiros, para que esses dons sejam explorados e consumidos pelo prazer de brancos ricos.

Achei que o clube de blues ofereceria apenas uma boa sequência musical ao filme. Como é bom estar enganado. A cena em que todos cantam e dançam no salão principal, acessando passados e futuros simultaneamente, cria uma comunhão coletiva naquele espaço. Essa sequencia é mais sagrada do que muitas orações por aí.

Relevei completamente a versão “herói de videogame” do protagonista e passei a enxergá-la como metáfora dos momentos de combate que enfrentamos na vida, quando é preciso entrar com tudo e redefinir prioridades.

Todos os personagens crescem ao longo da narrativa. Mesmo sem mostrar tudo explicitamente, o filme nos permite visitar a realidade de cada um, com seus medos, traumas e desejos.

Sinners é um filme para ser assistido na maior tela possível e com o melhor sistema de som disponível. Preste atenção aos detalhes sonoros: é um verdadeiro presente para os sentidos. Merece muitas indicações e premiações. Para mim, é facilmente um dos melhores filmes da temporada do Oscar 2026.


Sinners está disponível para streaming no Brasil através da HBO Max.

The Movie Database (TMDB)

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