Futebol enquanto um projeto de governo

Este é um pensamento tendencioso, a partir da minha experiência. Não quero aqui fazer uma análise dos impactos sociais e econômicos, que sei que são positivos, mas da forma como eu enxergo a modalidade no contexto social.
Comecei este texto há seis meses e não conseguia achar que ele estava pronto para ser publicado.
Nesses dias, precisei arejar a cabeça de temas mais “sérios” e resolvi voltar a esse assunto para oxigenar as ideias.

Crescido no centro da cidade, próximo a um cruzamento, ir para a rua jogar bola não era uma opção para a minha rotina. Seja por isso ou por qualquer outro motivo, o futebol nunca foi um esporte que me chamasse muita atenção, e por vezes eu ainda ficava incomodado com a música do Globo Esporte tocando após o almoço.
Ir ao estádio assistir a um jogo do Estrela do Norte, time cachoeirense da segunda ou terceira divisão, era para mim um momento de comer vários petiscos e tomar uma boa lata de Coca-Cola. Acho que até a “ôla” não era algo que me divertia tanto.

Sempre vibrei em todos os jogos da Copa, mas, ainda assim, o clima de festa e as comidinhas eram o que mais me atraíam.

Lembro de algumas cenas transmitidas na TV do jogo Vasco x São Caetano, na final da Copa João Havelange de 2000, em que houve um tumulto no meio da arquibancada e isso fez com que várias pessoas caíssem umas sobre as outras pelos degraus. Os torcedores que caíram acabaram se amontoando na parte mais baixa, e a quantidade de gente era tão grande que a grade que cercava o gramado acabou cedendo. Após essa cena, eu ficava pensando: “Como pode alguém querer voltar para o campo de futebol com tamanho risco de briga e até mesmo de acidentes?”.
Acho que essa falta de empatia pelo esporte sempre me fez ter um pouco de ranço da modalidade, ainda mais quando a Globo optava por passar um jogo amistoso de qualquer time, em vez de transmitir a final do Novo Basquete Brasil (NBB), por exemplo.

Meio sem espaço para levar esse assunto para a terapia, comecei a pensar em motivos factuais que me fazem não fazer parte da “paixão nacional”.

Parece que o que me incomoda não é a dinâmica do jogo em si, mas todo o sistema por trás dele e como isso faz parte de uma política de pão e circo barata, oferecida à população sob o nome de lazer (eu vou chegar lá).
Se você parar em frente à TV ou a um campo improvisado e acompanhar a partida, sem qualquer comentário externo, apenas observando, após algumas horas (ou dias) já será possível entender algumas regras e como jogar. Qualquer pessoa, com pouco conhecimento e educação formal, consegue compreender e ainda gritar “gol” na hora emocionante em que a rede balança.

Com isso, comecei a fazer o caminho inverso para sustentar minha teoria de boteco.

Uma “família tradicional brasileira”: casal e dois filhos morando no subúrbio das grandes metrópoles. O homem, que vou chamar de Bill, trabalha fora em uma jornada de 44 horas semanais; a mulher, que vou chamar de Joss, trabalha com as atividades domésticas da família; e os dois filhos estudam na escola municipal. Bill sai de casa às 5h da manhã para conseguir entrar no trabalho às 7h, sai às 17h e chega em casa às 19h. O tempo dele em casa é para ajudar os filhos com a lição, jantar, assistir ao Jornal Nacional e depois dormir para continuar sua jornada de trabalho.
Nos finais de semana, Bill sempre tem uma pelada com os amigos. Em um gramado sem qualquer manutenção, eles colocam estacas e improvisam uma trave, e assim ficam das 8h da manhã até as 10h.

Se Bill for questionado se pratica alguma atividade física, ele vai dizer que sim: o “futebol sagrado de toda semana”.

No cenário de Joss, ela acorda às 4h da manhã para preparar a marmita de Bill e, logo depois, acorda os dois filhos para irem à escola. Joss passa o dia todo cuidando da família.
Duas vezes por semana, Joss leva os filhos ao mesmo campo improvisado de Bill para que possam jogar bola com os amigos. Como todos os “homens da casa” estão trabalhando, os filhos vão sozinhos ou então acompanhados da mãe. No domingo, Joss quer conseguir dormir um pouco à tarde e ter sossego, momento que só acontece quando o marido está em frente à TV vendo o seu Mengão jogar.

Arrisco-me a dizer que esse cenário só é possível de ser sustentado com o futebol.
O basquete precisa da instalação de uma cesta, o vôlei de uma rede; natação, nem se fala.

Se pensarmos nos esportes individuais, a corrida é uma grande concorrente para atender essa demanda de lazer e prática de exercícios, mas com alguns problemas. Correr sozinho na rua pode ser perigoso: quem é que vai mexer com um grupo de 20 homens jogando futebol? Mas mexer com uma pessoa correndo sozinha, próxima às vias expressas, é um alvo fácil para a violência.

Para que fique claro: eu acredito fortemente que o futebol tem um papel importantíssimo na sociedade, desde o senso de comunidade, lazer, vínculo social e muitos outros aspectos. Porém, preciso também enxergar que é um esporte de baixíssima manutenção do Estado e que faz com que as pessoas se resolvam sozinhas, sem a necessidade de intervenção.

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