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História do Cinema: 1830-1899

Da descoberta da fotografia às imagens em movimento

O cinema mais não é do que uma ilusão óptica, em que um conjunto de imagens, cada uma ligeiramente diferente da anterior e projectadas num ecrã de uma forma rápida, é interpretado pela mente humana como movimento contínuo. Este fenómeno, designado por persistência da visão, foi uma das invenções e descobertas cientificas ocorridas ao longo do século XIX, que possibilitaram o nascimento do cinema.

Uma inovação essencial para o nascimento do cinema foi, então, a fotografia, que se tornou comercialmente viável em 1839, quando Louis Daguerre desenvolveu um método que permitiu a impressão de fotografias em chapas de metal. Enquanto o método de Daguerre permitia a captura de sucessivas imagens de pessoas ou objectos em movimento, o Zoopraxiscope, de Eadweard Muybridge, permitia a projecção num ecrã, de uma forma rápida, de imagens imprensas num vidro rotativo, dando assim a ilusão de movimento. Outros avanços tecnológicos importantes para o nascimento do cinema foram a descoberta da electricidade e das lâmpadas incandescentes, que mais tarde viriam a ser incorporadas nos projectores, e o celuloide, que John Wesley inventa em 1869 e que servirá, anos depois, como a base da película cinematógrafica.

Muito embora todos estes avanços, o nascimento do cinema não foi imediato e foi necessário o espírito criativo de Thomas Edison, nos EUA, e dos irmãos Lumière, em França, para que a sétima arte visse a luz do dia. Edison, ao aperceber-se que as imagens em movimento poderiam atrair muita gente, desenvolveu o Kinetoscope, uma caixa de madeira que funcionava à base de moedas e que permitia a uma pessoa assistir a um pequeno filme. Os primeiros filmes de Thomas Edison estrearam em Abril de 1894 em Nova Iorque, onde Edison abriu o primeiro salão Kinetoscope. o primeiro filme registado foi “Edison Kinetoscopic Record od a Sneeze” (Gravação kinetoscópica de um espirro por Edison – tradução livre).

No ouro lado do Atlântico, os irmãos Lumiere tomam conhecimento da invenção de Edison e interessam-se pelas imagens em movimento, inventando o Cinematógrafo, um aparelho que permitia a projecção de filmes num ecrã. A 28 de Dezembro de 1895, no Salon Indien du Grand Café, em Paris, os Lumiere efectuam a primeira projecção pública de filmes e o cinema, tal como o conhecemos, nasceu. Do programa desse dia constaram, entre outros, os filmes La Sortie des Usines Lumière (que mostra operários a saírem da fábrica dos irmãos Lumière) e L’Arroseur Arrosé, o primeiro filme de ficção da história do cinema.

Thomas Edison não se fica atrás e adquire o seu próprio sistema de projecção, o Vitascope, e inicia a projecção de filmes em 1896. No final da década outras empresas surgem no mercado, entre elas a Biograph e a Vitagraph, e no meio de sucessivos processos judiciais por causa de patentes, o cinema começa a ganhar público entre as classes trabalhadoras.

1831
– Os fisicos Michael Faraday (britânico) e Joseph Henry (americano) descobrem o principio da indução electromagnética, que levará, no final da década, à descoberta da energia eléctrica.

1839
– O inventor francês Louis Daguerre desenvolve o Daguerreotype, o primeiro método comercial para produzir fotografias.

1841
– O inventor britânico William Fox Talbot patenteia o Calotype, processo para imprimir negativos fotográficos em papel.

1869

– John Wesley Hyatt inventa o primeiro plástico comerciável, o celuloide, que mais tarde servirá de base à película cinematográfica.

1879
– O americano Thomas Edison regista a primeira lâmpada incandescente, que será parte importante dos projectores cinematográficos.

1887
– Na Alemanhã, Ottomar Anschultz demonstra o Electrotachyscope, um mecanismo que faz girar um disco com imagens e que, assim, cria a ilusão de imagens em movimento. Ao contrário da projecção, as imagens do Electrotachyscope apenas eram vistas por uma dezena de pessoas ao mesmo tempo.

1889
– O americano George Eastman inventa o filme de celuloide perfurado.
– Thomas Edison desenvolve o Kinetophonograph que permite sincronizar a projecção de um filme com uma gravação fonográfica.

1891
– Thomas Edison inventa o primeiro sistema cinematográfico do mundo,o Kinetograph, e o Kinetoscope, uma caixa que permitia ver filmes.

1892
– O francês Émile Renauld demonstra o Praxinoscope, que permite projectar pequenas animações desenhadas à mão, num ecrã.

1893
– Thomas Edison constrói o primeiro estúdio de cinema (Black Maria) em Nova Jersia.
– Tem lugar em Nova Iorque a primeira exibição pública do Kinetoscope.

1894
– Thomas Edison inicia a actividade comercial do Kinetoscope, em Nova Iorque.
– Robert W. Paul, um cientista de Londres, descobre que Edison não tinha registado o Kinetoscope na Inglaterra e começa a aperfeiçoá-lo; os melhoramentos incluem um sistema que torna as imagens menos distorcidas e a sua projecção num ecrã.
– Em Berlim, Ottomar Anschutz faz a demonstração de um sistema de projecção.

1895
– A 28 de Dezembro, os irmãos Lumière efectuam a primeira exibição pública de filmes, data considerada como a do nascimento do cinema.

– Os americanos Thomas Woodville e Charles Jenkins desenvolvem o Phantascope, um sistema de projecção mais desenvolvido.

– Em Inglaterra, Robert W. Paul e o fotografo Birt Acres colaboram na construção de uma câmara de filmar; Acres começa a filmar eventos desportivos.

– Na Alemanha, Max Skladanowsky regista o seu projector Bioskop e faz uma projecção pública em Berlim.

1896
– Thomas Edison adquire os direitos do Phantascope (passando-se a chamar Vitascope) e inicia projecções públicas em Nova Iorque.
– As empresas Biograph e Vitagraph iniciam operações, tornando-se nas principais rivais da Edison Company.
– Em Inglaterra, Birt Acres demonstração da projecção de filmes e funda a Northern Photographic Works.
– Robert W. Paul dá a conhecer o seu método de projecção de filmes e meses depois realiza o primeiro filme de ficção inglês, The Soldier’s Courtship.
– Peter Elfelt realiza o primeiro filme Dinamarquês.
– O espectáculo dos Irmãos Lumiere estreia na Índia.
– A primeira exibição cinematográfica em Espanha ocorre em Madrid, perante uma audiência constituída principalmente por colegiais.

1897
– A Vitagraph estreia o seu primeiro filme de ficção The Burglar on the Roof.
– Fructuoso Gelabert realiza o primeiro filme de ficção espanhol, Rina en un Café.

1898
– Até meados da década seguinte, em vez de alugarem, as empresas cinematográficas vendem os filmes e o equipamento de projecção às empresas exibidoras.
– Os imigrantes e as classes trabalhadoras constituem o grande público cinematográfico.

1899
– Cecil Hepworth, um dos fundadores da industria cinematográfica britânica, produz os seus primeiros filmes.
– O Japão produz os seus primeiros filmes.
– Robert W. Paul inaugura um dos primeiros estúdios ingleses no norte de Londres.
– Auguste Baron trabalha no seu sistema sonoro, mas não encontra grande receptividade.

Os Dez de Hollywood

O fim da 2a Guerra Miundial (1939-1945) trouxe bastante tensão entre os aliados Estados Unidos e União Soviética. Esta tensão, que durou cerca de 46 anos e ficou conhecida como Guerra Fria, provocou, nos Estados Unidos, um forte sentimento anticomunista e uma verdadeira "caça às bruxas". O seu epicentro foi o "Comité de Investigação de Actividades Antiamericanas", criado em 1938 pelo congresso Norte-Americano para investigar a actividade de grupos comunistas e fascistas, mas que ganhou força com a Guerra Fria.

Em 1947, o Comité virou a sua atenção para a indústria cinematográfica, na tentativa de provar que comunistas se tinham infiltrado em Hollywood, nomeadamente na associação de argumentistas, e que existiam filmes que continham propaganda aos ideais comunistas. A reacção inicial da comunidade cinematográfica foi de revolta contra este ataque aos seus direitos, mas rapidamente a situação mudou, quando um grupo de profissionais testemunhou perante o Comité e apoiou as suas actividades, nomeadamente denunciando colegas. Das centenas de profissionais suspeitos de actividades comunistas e intimados a comparecer perante o Comité, dez recusaram testemunhar, alegando que os seus direitos estavam protegidos pela Constituição, e colocaram em causa a legitimidade das investigações. O grupo, que ficou conhecido como os "Dez de Hollywood", pagou caro as suas acções, já que foram julgados por desrespeito ao Congresso e sentenciados a um ano de prisão e a pagar uma multa de mil dólares cada. No entanto, a sua pena não ficaria por aqui, já que, à excepção de um deles (Edward Dmytryk, que, entretanto, decidiu colaborar com o Governo e denunciou mais de 20 outros colegas), o grupo passou a fazer parte da "lista negra de Hollywood".

A lista foi criada pelos maiores responsáveis da indústria cinematográfica que, numa reunião em Nova Iorque em 1947, decidiram unir esforços para eliminar actividades subversivas na indústria e, assim, mostrar o seu patriotismo perante o Governo e a opinião pública. A lista incluía qualquer profissional investigado, acusado ou apenas suspeito da mínima actividade comunista e, como consequência, as pessoas na lista eram impedidas de trabalhar na indústria cinematográfica. Suspeita-se que mais de 300 pessoas terão feito parte da "lista negra" (sempre negada pelos estúdios de Hollywood) e deixado de exercer a sua profissão.

O Comité cessou as suas funções em 1954, mas a "lista negra" apenas terminou durante a década de 1960. Muito embora as suas figuras controversas, já que eram comunistas assumidos, os "Dez de Hollywood" são as faces mais visíveis de um episódio que envergonha a indústria cinematográfica norte-americana. Os Dez de Hollywood são:

  • Herbert J. Biberman (1900-1971) - realizador
  • Edward Dmytryk (1908-1999) realizador
  • Robert Adrian Scott (1911-1972) - produtor
  • Lester Cole (1904-1985) - argumentista
  • Albert Maltz (1908-1985) - argumentista
  • Samuel Ornitz (1890-1957) - argumentista
  • Dalton Trumbo (1905-1976) - argumentista
  • Ring Lardner Jr. (1915-2000) - argumentista
  • John Howard Lawson (1894-1977) argumentista
  • Alvah Bessie (1904-1985) - Argumentista

(c) 2019 Rui Chambel - info (@) chambel.net

Alice Guy-Blaché, Pioneira da Sétima Arte

Alice Guy-Blaché

A história do cinema está cheia de figuras pioneiras, que os tempos esqueceram. Alice Guy-Blaché é uma dessas figuras e cujo contributo foi fundamental para o desenvolvimento do cinema enquanto arte.

Alice Guy nasceu a 1 de Julho de 1873, em Paris. Filha de pais franceses, que viviam no Chile, Alice viveu os seus primeiros anos com a avó, até os pais regressarem a França, onde viriam a morrer pouco tempo depois.

A nível profissional, Alice Guy começou a sua carreira como secretária de Leon Gaumont, que trabalhava para um fabricante de máquinas fotográficas. Quando o negócio deste entrou em dificuldades económicas, Gaumont, em conjunto com outras figuras, entre elas Gustave Eiffel, comprou o inventário da empresa e formou, em 1895, a Gaumont, que viria a ser uma das mais importantes empresas cinematográficas do mundo. Alice acompanhou Gaumont na nova empresa e como responsável pela produção o seu trabalho revelou-se inovador, nomeadamente na utilização de cor, de som, de efeitos especiais e no desenvolvimento da narrativa cinematográfica, cujo melhor exemplo é La Fée Aux Choux (1896), considerado o primeiro filme narrativo da história do cinema. Em 1906, Alice realiza dois outros marcos da sua carreira: La Vie du Christ, a sua primeira longa-metragem e um dos grandes blockbusters da época do cinema mudo, com 25 cenas e cerca de 300 figurantes, e La Fée Printemps, que utiliza efeitos especiais a cores.

Em 1907, Alice casa com Herbert Blaché, que, pouco depois, foi nomeado responsável de produção da Gaumont nos Estados Unidos. Alice acompanha o marido para os Estados Unidos e, após trabalharem juntos na Gaumont norte-americana, o casal decide formar a sua própria empresa: a Solax Company. Sediada em Nova Iorque, a Solax tornar-se-ia no maior estúdio pré-Hollywood e onde Alice continuou o seu trabalho como directora artística, escrevendo e realizando grande parte da produção da empresa.

Em 1922, Alice Guy-Blaché realiza Tarnished Reputations, que viria a ser o seu último filme e dois anos depois divorcia-se, regressando a França. Ai tenta retomar a sua carreira, mas a dificuldade em provar o seu curriculum, já que poucos ou nenhum dos filmes da Gaumont sobreviveram, levam-na a escreve romances a partir de argumentos cinematográficos e a dar palestras sobre cinema. Esquecida durante décadas, Alice Guy-Blaché viu o seu trabalho reconhecido em 1955, quando foi condecorada pelo Governo Francês com a Legião de Honra. Nove anos mais tarde regressa os Estados Unidos para viver com uma das suas filhas, falecendo em 1968.

Com uma carreira de mais de 700 filmes, que abrangeram géneros tão diferentes como o drama, o western e as biografias, o trabalho de Alice Guy-Blaché permitiu o desenvolvimento do cinema, ajudando-o a transformar-se técnica e esteticamente.


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O Estrangeiro (1946)

poster

O Estrangeiro é o terceiro filme realizado por Orson Welles que, após os problemas e fracassos de O Mundo a Seus Pés (1941) e O Quarto Mandamento (1942) se tornou persona non grata em Hollywood. Welles estava, assim, desejoso de provar que conseguia realizar um filme dentro do tempo e orçamento estipulado e por essas razões aceitou realizar O Estrangeiro

Aparentemente O Estrangeiro é um convencional film noir, fora do contexto da obra de Welles e longe das suas obras-primas. No entanto, o filme é mais do que um simples filme negro, onde é possível identificar a mestria do realizador, quer a nível do desenvolvimento das personagens, quer a nível do seu estilo visual. De tal forma, que, ao vermos O Estrangeiro vem-nos à cabeça cenas de outros filmes do realizador, nomeadamente através dos arrojados ângulos de câmara tão característicos de Welles.

Outra característica de O Estrangeiro é o facto de, também neste filme, Welles não se importar de apresentar e interpretar, ele mesmo, uma personagem tão atroz como Franz Kindler, um criminoso de guerra nazi procurado pelos seus horríveis crimes. Aqui, encontramos semelhanças com a O Terceiro Homem, realizado por Carol Reed, mas onde Welles interpreta também um desprezível criminoso que rouba penicilina e a vende alterada, provocando deformações em crianças.

Durante a produção de O Estrangeiro, Orson Welles teve de fazer diversas concessões artísticas e nem sempre a produção decorreu como pretendia. No entanto, o realizador conseguiu o objectivo de terminar o filme a tempo e sem exceder o orçamento previsto. Para isso muito contribui-o o facto de o contracto assinado com o produtor Sam Spiegel (na altura conhecido por S.P. Eagle porque considerava o nome mais distinto) que estipulava que, caso gasta-se mais tempo e dinheiro que o previsto, seria despedido como realizador, mas continuaria como actor. Welles aceitou esta condição, para além de ter também aceitado um guião de filmagens preestabelecido e do qual não tinha grande espaço de manobra.

Com todas as condicionantes da produção, Welles cumpriu o acordado e, muito embora a crítica tenha considerado um filme menor do realizador, a verdade é que O Estrangeiro foi o único filme verdadeiramente lucrativo da carreira de Welles e abriu-lhe novamente as portas para realizar filmes com a liberdade criativa desejada. O seu filme seguinte (A Dama de Xangai) não poderia ser o mais oposto de O Estrangeiro: se este é um filme convencional, o primeiro é um dos mais arrojados da carreira de Welles.

Muito embora não seja um dos melhores trabalhos de Welles, O Estrangeiro é um thriller interessante, que tem uma dimensão única graças ao seu realizador/protagonista.


(c) 2019 Rui Chambel - info (@) chambel.net