O Estrangeiro (1946)

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O Estrangeiro é o terceiro filme realizado por Orson Welles que, após os problemas e fracassos de O Mundo a Seus Pés (1941) e O Quarto Mandamento (1942) se tornou persona non grata em Hollywood. Welles estava, assim, desejoso de provar que conseguia realizar um filme dentro do tempo e orçamento estipulado e por essas razões aceitou realizar O Estrangeiro

Aparentemente O Estrangeiro é um convencional film noir, fora do contexto da obra de Welles e longe das suas obras-primas. No entanto, o filme é mais do que um simples filme negro, onde é possível identificar a mestria do realizador, quer a nível do desenvolvimento das personagens, quer a nível do seu estilo visual. De tal forma, que, ao vermos O Estrangeiro vem-nos à cabeça cenas de outros filmes do realizador, nomeadamente através dos arrojados ângulos de câmara tão característicos de Welles.

Outra característica de O Estrangeiro é o facto de, também neste filme, Welles não se importar de apresentar e interpretar, ele mesmo, uma personagem tão atroz como Franz Kindler, um criminoso de guerra nazi procurado pelos seus horríveis crimes. Aqui, encontramos semelhanças com a O Terceiro Homem, realizado por Carol Reed, mas onde Welles interpreta também um desprezível criminoso que rouba penicilina e a vende alterada, provocando deformações em crianças.

Durante a produção de O Estrangeiro, Orson Welles teve de fazer diversas concessões artísticas e nem sempre a produção decorreu como pretendia. No entanto, o realizador conseguiu o objectivo de terminar o filme a tempo e sem exceder o orçamento previsto. Para isso muito contribui-o o facto de o contracto assinado com o produtor Sam Spiegel (na altura conhecido por S.P. Eagle porque considerava o nome mais distinto) que estipulava que, caso gasta-se mais tempo e dinheiro que o previsto, seria despedido como realizador, mas continuaria como actor. Welles aceitou esta condição, para além de ter também aceitado um guião de filmagens preestabelecido e do qual não tinha grande espaço de manobra.

Com todas as condicionantes da produção, Welles cumpriu o acordado e, muito embora a crítica tenha considerado um filme menor do realizador, a verdade é que O Estrangeiro foi o único filme verdadeiramente lucrativo da carreira de Welles e abriu-lhe novamente as portas para realizar filmes com a liberdade criativa desejada. O seu filme seguinte (A Dama de Xangai) não poderia ser o mais oposto de O Estrangeiro: se este é um filme convencional, o primeiro é um dos mais arrojados da carreira de Welles.

Muito embora não seja um dos melhores trabalhos de Welles, O Estrangeiro é um thriller interessante, que tem uma dimensão única graças ao seu realizador/protagonista.


(c) 2019 Rui Chambel - info (@) chambel.net


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