Lockdown (pt)

O que era vida urbana virou baldio e silêncio
O caos de uma incógnita tomou o varejo
As canetas poderosas dizem "abre!", "fecha!"
Impõem a reclusão, revertem todo despejo

E que assim seja; correto, ainda que precipitadamente
As grades de casa nos trazem um novo presente
Uma segurança ou refúgio aparente
Da manhã fria de chuva ao sol poente

No contraste do que era espalhado
As filas dando voltas nos quarteirões
Concentram a ausência da metade do mínimo aceitável
Conservam o ciclo da falta em invisíveis prisões

O bolso é basicamente um vácuo
A ansiedade bate forte, distorce a visão
Nenhum boleto atrasa, todos na data certa
Cada código de barras é mais uma tensão

Setas iluminadas pra esquerda e direita
Apagaram as indicações pra seguir em frente
Os moluscos se degladiam com as bananas
Não sobra nem uma farofa pra essa minha gente

E eu aqui, cativo, sem ter aonde ir
Internet virou minha praia, vazia e cheia
Eu sou um mero siri, andando de lado
Fugindo da raia, preso na lata, cavando na areia

Das costelas, grades; o coração em cárcere privado
A alma em lockdown, cativa de si mesma
As ruas de mim em trânsito engarrafado
Show de buzinas na mente, num sinal fechado

As escadas que subo são infinitas
Dos caminhos que ando, quantas curvas tão penosas
Nas vielas e esquinas por que passei
Só eu sei como pulei (ou não) as arapucas ardilosas

A área comercial dentro de mim faliu
Minhas lojas não têm mais novidades na bagagem
Estagnação é a ordem, o único produto
E o mercado negro oferece vício como vantagem

Minhas indústrias fabricam preguiça e entorpecimento
O ônibus diário só faz o caminho mais longo
Pra que o pensar fique mais tedioso e lento
Pra me reduzir a menos que um camundongo

Porque os dias passam, a rotina enfada
Cada flecha ou pedra no caminho me apavora
Lacrado nessa gaiola, a vida fica pesada
O corpo sente, a alma sofre, o espírito chora

Os pés não se movem na direção pretendida
As mãos não se empenham na ação escolhida
O bem que eu quero, esse eu não faço
Já o mal me amarra num forte embaraço

A palavra convence, o exemplo arrasta
Mas estátua não fala, não sai palavra de mim
Quaisquer sílabas poderosas, outrora vitais
Pelo ralo da passividade encontram fim

Os exemplos de quem tanto me ensinou
São borrados pela falta de fé
As repetições que prometo encerrar
Me rondam mesmo quando estou de pé

Fumaça de carro, puro ar de cidade
Dentro de mim, paisagem cinza de cimento
São linhas tortas de des-vida reincidente
Um zumbi sapiente em loop no mesmo momento

E aí entendo que a quarentena já estava aqui
A condição normal de minha recente existência
Porque vida é só pra quem vive
Mas meses ou anos de lockdown são apenas sobrevivência

Porque de tudo a gente procura ciência
Ideologias estúpidas incham em meio à dormência
Na cadência dos dias parece até demência
Porque a mente sabe, mas não concentra em obediência

Meu domínio próprio escorre pelas mãos
Prisioneiro de mim mesmo, sem paz ou paciência
A fidelidade falha em manter a alegria
Só Jesus sabe quanto isso tudo não é mera carência

O amor que edifica é sempre minha preferência
A esperança em Deus até resiste pela insistência
Até que o mundo se abra de novo eu procuro a porta estreita
Que me leve à vida, à constância, à consistência
.


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