Inacabados

O que é acabar? Pode significar concluir, assim como destruir, matar. Acontece que o fim, feliz ou não, dói e precisa doer.

O nascimento tem choro e dor, ainda que seja um momento geralmente celebrado. Acabou-se o ventre quentinho, acabaram-se, por um tempo, as noites contínuas de sono.

Por outro ângulo, a interrupção de um hábito ruim - fumar, por exemplo -, é algo a comemorar, embora o caminho seja sofrido.

O encerramento de uma série acompanhada por anos deixa um vazio, um sentimento de que se perdeu algo. Por mais que houvesse expectativa em conhecer o fechamento da narrativa, a partir de agora somente há o ponto final.

Da mesma forma, pode ser doloroso o final de um texto. Dizer que ele está pronto é assumir que não será melhor do aquilo que ele realmente é. Não será outra coisa senão aquilo que pôde ser. Limitado. O texto e quem escreve. Fragmentos que precisam de fechamentos.

Aceitar o fim de um emprego, de uma relação amorosa, de uma amizade, é deixar morrer aquela parte da sua identidade. Porém, agarrar-se a algo putrefato é muito mais danoso.

Para adiar a dor de encerrar ciclos, ao invés de pontos, alguns optam por reticências. Retardar a dor não é sofrer mais?

É preciso concluir, deixar o ponto final acontecer. Aí, então, feito o parto, encerrado o ciclo, uma nova construção pode surgir. Necessário cuidado com os inacabados: são os fantasmas do armário, que sentam ao redor da mesa. É preciso afastá-los, para então sentir a dor na carne, e perceber que as coisas têm valor justamente porque são finitas.


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