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J_Leyva

Em que anotação ficou perdida a minha face? Alguém acostumada a perder textos, seja por desorganização, seja intencionalmente, rsrs.

Parece que o jogo virou

Entre blefes e apostas
Juntaram-se espontâneas cartas
De dúbio valor, contudo.

O dois com o valete dançou
Já o três enlaçou a dama
E o seis brindou com o rei.

Enquanto isso, alegres,
Sustentando suas posições,
Os coringas sorriam.

A alegria dos encontros
Possíveis entre diversos
Dava-se no jogo sincero.

Afinal, naquele castelo de cartas
Havia peões com coroas
E quase flutuando no topo!

Talvez fosse o vento
Uma mudança climática
Ou quem sabe o sopro daqueles lábios
Mas empurrou-se a base.

Não houve cola,
E as cartas voaram...
Algumas entraram em frestas
Outras fincaram no chão
E, ainda, há várias que sequer sabem
Se um dia irão parar. 

Rascunhar-se

Os rabiscos surgem nas bordas
As ideias adentram as frestas
Cada qual senta em um canto
Aguardando a anunciada festa

O pensamento está nas beiradas
Mas não ingressa o salão principal
Vive de muitos ensaios
Esperando o bendito aval

Autorização que nunca chega
Que não se sabe de onde virá
Acumulam-se os esboços
No aguardo do alvará

Se o texto está a lápis
Ou ainda no bloco de notas
Mantém-se provisório
Prevenindo qualquer derrota

Sem maiores permissões
Os rascunhos estão em latência
Rascunhar-se? Sempre!
Jamais como personagem da própria existência

Contar

Brincando de faz de conta
As contas caíram ao chão
Contei as contas caídas
Em um conto feito à mão

Das contagens das contas
Entreguei-me à operação
Mas talvez melhor fosse
O conto da emoção

A cada conto contado ou cantado
Mais continuações convêm
Suas contínuas contagens
Compartilham o que contêm

Ao contar cada conto ou cantar
Elabora-se um novo conto
Criado de outras contas
Cosidas no colar sem ponto.
Pronto!
No canto daquela ponta
Contei e cantei, para então recontar

Ao cantar o que contei
A plateia dispersou
Decidi pedir a conta
E o garçom providenciou

Os furos que me perpassam

Os furos que me perpassam
Fazem de mim quem sou

Marcam espaços e ausências
Também desejos e partidas
Vontades e indecências
E outras alegrias contidas

Os furos que me perpassam
Podem doer ainda ao tocar

Expõem todas as feridas
De difícil cicatrização
Não mexa na casquinha exibida!
Já que é custosa a contenção

Os furos que me perpassam
Gritam mais do que eu gostaria
Têm formatos e áreas sombrias;
Mas também a luz deixam chegar
Até há certas covardias
Escondidas de par em par

Os furos que me perpassam
Sei que ainda vão aumentar
Esses buracos que me atravessam
Me alimentam até matar

Tic, Tac

O trabalho
O relógio
O descanso
Bebe água!

O chefe liga
O cliente pede
O prazo apertou
A meta triplica
Seja mindfulness!

Todos dão conta
Só você que não
Vença o capitalismo, bebê
Ou o fracasso é você

Cacos

A vida ficou trancada
Ante a busca dos retalhos.
Em meio a muito entulho
Insistia em catar pedaços

Amostras grátis do outro
Misturadas ao bagunçado vazio
Porém, inebriantes e breves
E que o aqueciam no frio.

Os cacos em meio ao caos
Também podiam ferir
Num espelho, viu sua lágrima
E cortou-se com bastante sentir

Entre entalhes e trapos
A vida arrastava-se ali
Até que o último talho
Fez-lhe almejar sair

Na confusão permaneceria
Despida da busca de partes
Queria um cobertor inteiro
E não apenas metade

Conjunções

Queria dispensar o "ou"
E ter uma vida repleta de "e"
Viveu, porém, em péssima associação de conjunções
E morreu com uma infinidade de "ses "

A um organismo

Partes aleatórias
Unidas sem qualquer engodo
Cada qual em um ramo
Daquele mesmo todo

As respirações divergem
E os locais que se têm
Mas há sentidos partilhados
E desejos também

A dor de um rim
Aos pedaços contempla
E a vitória querida
A todos alimenta

Há vontade do anonimato
De igualmente dividir
Sem poder ser julgado
Ou demais se exibir

O organismo formou-se
De peles, cheiros e dores
Indicando, no coletivo,
A partilha não só de temores

Com os vários percentuais citados
Os estatísticos estão a brincar
Conhecendo os órgãos amigos
Sem as faces revelar

Mudam-se pronomes e jeitos
A fim de se preservar
Às vezes, há um suspeito
Que pode ou não se calar

As expressões são livres
Mas o cuidado impera
Porque essa amizade
Somente é meio moderna

Em qualquer lugar do mundo
Conectam-se os fagocitados
Comemorando, plenos
Serem tão felizardos

Contentes porque o ser
Requer a acolhida
Dos silêncios propositais
E daquelas palavras ditas

As pobres rimas presentes
São feitas de versos simplistas
Servindo só para saudar
Esse organismo mutualista.

Liberdade para outra ave

Em meio à constante vigília
Ave ansiosa encontrei
Suas asas parecem as minhas
Restritas pelo mesmo rei

Escapamos pela imaginação
Em cada cesto a confabular
Discutindo se haverá força
Para quem sabe pular

Saltar para a novidade
Para o futuro construir
Com o vento em nossas faces
E os parceiros a seguir

Voar ao desconhecido
Mas também ao familiar
Ao que se julgou perdido
Consumido em algum mar

Se gaivotas fôssemos
Sobrevoando o litoral de emoções
Mais fácil identificaríamos
Os terrenos com depressões

Só que, em alto oceano,
Não se escuta o belo cantar
Daqueles pássaros amigos
Que tanto preferem falar

Cada pássaro, uma plumagem
Entoando canções similares
Trocando algumas histórias
Esperando criar coragem

Se sabes como escapar
Voa, voa, caro passarinho!
Não espera o despertar
De quem não partirá do ninho

E o amigo saltou...

Na gaiola construída fiquei
Contida a observar
Que aquele pouco calor
Decidiu o luar buscar

No frio em que me meti
Resta-me só aguardar
Ou a coragem do voo
Ou a falta de ar.

ME DEVOLVE O CONTROLE

A roda da vida segue num laço
Tem balanço
E tem compasso
A música tema toca ao fundo
Será o momento épico dessa história?

“O controle caiu e quebrou!”
Exclama o espectador angustiado.
Mas e se ele nunca existiu?

“Vamos consertá-lo, procurem pilhas!”
Exalta-se o pobre homem.
Procura a pilha
Procura o conserto
Procura dicas digitais
Procure, procure!
Batidinhas no equipamento
Botões apertados com força
Acessos de fúria

No fim, o tempo passou
E o espectador, distraído,
Perdeu o ápice da roda da vida.

Sabotei-me

O primeiro gole
Dá aquele tempo necessário
Às ideias organizar
Se cada hora é um calvário
Como posso me acalmar?

Uma pausa: respirar
Onde encontro a saída?
Se não sei onde chegar
Permanecerei perdida

Solta em pensamentos
Em no que poderá virar
Esquecendo por completo
Que o dia vai raiar

Planos muitos eu já fiz
Sempre disposta a sonhar
Duvidando todo dia
Quando o tempo irá chegar

Essa mistura frequente
Pouco prática se mostra
De sabor adstringente
Até a língua entorta

Devaneios constantes e
Num momento de sensatez
Vem a realização importante:
É aquele gosto selvagem!
Tenho medo, a cada instante
Dessa autossabotagem.

Distâncias

Há distâncias que não se medem
Mas se sentem
Seja o espaço entre o início
e o final da frase

Seja o intervalo entre mim e ti
Que pode ser de três caracteres
Ou de uma parede
Ou de mares
Ou de um beijo
Ou de uma conjunção

Ou daquela palavra engasgada e não dita

Aquelas sílabas ficaram entre nós
Acomodaram-se e ampliaram espaços
Que embora não vistos
São palpáveis

Será que ainda dá tempo de varrermos esses dizeres?

Bit Flip

E se a certeza digital
For abalada por um raio?

Que radiante adentra o manto
De um belo transistor
E por meio de um encanto
Deixa um zero transpor

De pequena alteração
Muda-se aquele voo
Bem como uma eleição.
Também se sente o sopro
Da referida criação

Difícil explicar, pois
Ao humano cruel
Que o evento perdido
Foi culpa do céu...

A cada pesquisa
O problema não foi achado
O Universo avisa:
Prezados,
Houve um bit flip inesperado

Múltiplos

Quantas poesias
Cabem em um ser?
E se o indivíduo
Puder várias faces conter?

Na triste esconde as feridas
Na feliz exibe sucessos
Na malandra estão os gingados
Na sensual há muitas gavetas
Na confusa cabe a bagunça
Na raivosa há um saco de pancadas

Em busca de poéticos rostos
Põe-se a girar
Vê-se a face contente
Pouco antes de entontar
Ela, assim como outras
Está a multiplicar e multiplicar!

Desassossegos

O primeiro visita os cômodos
Procurando o que já partiu
No quarto abre gavetas
Considerando o presente hostil

O segundo na mesa está
Teorizando o que poderia ser
Grandioso futuro do pretérito
Dono de figos a morrer

O terceiro olha o espelho
Reclamando de enxergar
Se a cicatriz ainda está viva
Será que cabe apagar?

Cada qual não percebe o habitante
Sentando a se embalar
Olhando para o horizonte
Sem sentir, ver ou cheirar

A salvação do pobre ser
Pode estar num mate
Quando seus desassossegos
Decidirem fazer parte

Se aqueles perdidos, pois
Aquietarem-se no morador
Por um momento, apenas
Haverá verdadeiro sabor

Inspirado na música Desassossegos, de João Chagas Leite
*
Recomendamos a poesia complementar de Sr. Nuvem - https://listed.to/@srnuvem

Tesouradas

Cuidado, atenção, corte
Atenção, cuidado, corte
Corte, cuidado, atenção

Manteve-se o cuidado
E a plena atenção
Cortou-se bem alinhado
O tecido da criação

Ao admirar parte da obra
Esvaiu-se a atenção
Cuidado!
O corte vem!
E dessa vez na sua mão

O corte sangrando está
Manchando o tecido caro
A final tesourada
Desperdiçou todo o preparo