A primeira vez que Clarice me bateu

Muito criança, aos 12 ou 13 anos, não soube dar valor à Clarice. Macabéa possuía uma história triste e brasileira, mas eu achava Clarice desconectada demais por uma questão de classe. Já adulta, cheia de presunção, disse a um grande amigo, há cerca de dois anos, que ela não me cativava, pelo pouco que conhecia. Infelizmente ele não está mais aqui para ouvir-me, com vergonha, buscar minha retratação. Que pena que o dito não pode ser desdito.

Reencontrei Clarice e levei uma surra, maravilhada com as sensações e as camadas do texto. Sua genialidade está na sutilidade: a poesia e a força de suas palavras não vêm de grandes atos, mas do cotidiano e da exploração interna dos personagens. Há muito poder em demonstrar, por meio de cenas banais, a angústia das pessoas na narrativa - pode ser originada de uma barata e de uma dona de casa. Os fluxos de consciência não são bagunça: são expressões da fragilidade e da ambiguidade humana.

O paladar literário - ainda bem - é capaz de mudar. E onde só se sentia um gosto neutro, passa-se a reconhecer as nuances: notas de mel, um pouco de amargor, quase nenhuma pimenta, algum ingrediente que foi marinado no vinho. As experiências de vida permitem, assim (ainda bem), redescobrir Clarice Lispector.

Precisei ter lascas e vincos para aprender a amar a autora de A Hora da Estrela. Foi necessário quebrar-me, sem tempo de contar a novidade a quem foi embora. Para honrá-la e diminuir minha ignorância, cabe reler, agora com os olhos cansados e marcados, as obras de tão importante autora.


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