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Escrevo textos na internet desde 2011, em diversos blogs e sites que mantive ou participei. No listed compartilho alguns mais recentes sobre tecnologia, meio ambiente, privacidade e outras pautas. Email: victorrwolff@outlook.com

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Tecnologia para domar o carbono

Texto publicado originalmente no site O Parrote hospedado no Medium em 9 fev 2015. Disponível em: https://medium.com/o-parrote/tecnologia-para-domar-o-carbono-19716fcb7712

Fechar os olhos não é mais uma opção. As mudanças climáticas são reais. Ano passado foi o mais quente desde que se registra a temperatura do mundo [1]. O IPCC, Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas da ONU e autoridade máxima no estudo do aquecimento global, em 2013, divulgou o estudo mais importante sobre o assunto até o momento, com informações o bastante para afirmar, entre outras coisas, que existe 95% de chance da ação humana ter realmente influenciado nas mudanças climáticas [2].

Aos poucos essas mudanças vêm botando as garras pra fora, em lugares diferentes do mundo e com consequências sérias: a Califórnia está passando pela seca mais violenta em 1200 anos [3] e o permafrost está descongelando em um ritmo acelerado [4]— o Ártico, desde 1970, aquece em um ritmo dobrado se comparado ao resto do mundo.
Com o derretimennto do permafrost, grandes quantidades de gás metano são liberadas na atmosfera. O gás metano é muito mais perigoso que o CO2 para o efeito estufa, pois absorve mais calor.

Apesar da situação delicada, a emissão de gás carbono não parece ter planos para diminuir. Ao contrário, o mesmo documento do IPCC diz que as emissões estão aumentando. Atualmente, um quarto de toda a energia elétrica gerada no mundo vem de termelétricas que queimam carvão. Com um quadro desses, quais medidas poderiam ser tomadas?

Roubando CO2 do ar e armazenando-o

Entre as soluções mais comentadas está a técnica chamada carbon capture and storage (“captura e armazenamento de carbono”, numa tradução livre), ou CCS. Autoridades pelo mundo vêm apostando nela, apesar de certa controvérsia. A primeira usina termelétrica que utiliza carvão para gerar energia (usinas termelétricas são as maiores poluidoras do mundo) e captura o gás emitido foi inaugurada no final do ano passado no Canadá [5]. Segundo a empresa que a construiu, 90% do gás é capturado, depois vendido para a indústria petrolífera ou armazenado em formações geológicas.

A CCS Association declara em seu site [6] que “os países que investirem nas tecnologias de captura de carbono irão se beneficiar da sua exportação e que se o Reino Unido investir nisso, poderá criar até cem mil empregos”. Também o próprio IPCC afirma que sem o desenvolvimento das tecnologias CCS não será possível alcançar as metas de redução de emissão de carbono.

O projeto da usina canadense é inédito e controverso. Apesar de parecer uma tecnologia bem desenvolvida e capaz de não ser poluente, ambientalistas ainda não concordam com a ideia: o vencedor do prêmio Nobel, Al Gore, afirmou que as técnicas de CCS validam o uso de combustíveis poluentes e não são viáveis economicamente; o diretor da ONG Sierra Lione no estado do Mississippi, a mais tradicional a tratar de ambientalismo nos EUA, diz que as técnicas de CCS perpetuam o uso de combustíveis fósseis e atrasam a transição para as fontes de energia renovável.

Nos EUA, a construção da primeira usina que captura carbono do país foi abortada essa semana [7]. O Departamento de Energia do país cortou os recursos destinados ao projeto, dizendo que não haveria tempo para ele ficar pronto antes da data limite do projeto inicial de investimentos federais — o departamento havia prometido um bilhão de dólares para a construção da usina. E o custo financeiro desse tipo de tecnologia — a usina no Canadá custou 1,3 bilhões de dólares canadenses—é a principal crítica à indústra capaz de capturar carbono.

Roubando CO2 do ar usando plantas

As técnicas de CCS, porém, não envolvem somente projetos caros de comprimir e armazenar gás carbônico. Pesquisadores também estudam o carbon farming, que se baseia em um conceito muito simples: plantas absorvem gás carbônico e liberam oxigênio.

Em meados do ano passado, um grupo de pesquisadores da Califórnia demonstrou um experimento [8] em um terreno de dois acres e meio, onde era possível remover mais ou menos novecentos quilos de dióxido de carbono se fosse aplicado uma camada de pouco mais de um centímetro de matéria orgânica no solo.

Pesquisadores da Alemanha divulgaram um estudo, em 2013 [9], afirmando que poderia ser removida da atmosfera uma quantidade significativa de gás carbônico se fossem cultivados milhões de acres de uma planta chamada jatrofa [10], devido ao fato de que ela suporta solos contaminados, cria raízes profundas e aguenta altas temperaturas. Os pesquisadores acreditam que se áreas litorâneas e desérticas da Arábia Saudita, México, Nimibia e Oman fossem cobertas por plantações de jatrofa, até 16% de todo o aumento de CO2 lançado desde a Revolução Industrial poderia ser absorvido. Segundo os autores da pesquisa, o uso dessa técnica de carbon farming tem as vantagens de ser mais barata que a captura em usinas e de não existir o risco de ocorrer acidentes envolvendo vazamento de CO2.

Em contrapartida, também em 2013, o Guardian publicou uma interessante reportagem sobre carbon farming [11], jogando as técnicas um pouco pra baixo: depois de analisado o solo de algumas fazendas da Austrália, que durante anos haviam sido bombardeadas com matéria orgânica, foram descobertas pouquíssimas mudanças no nível de sequestro de carbono feito pelo solo local. Os cientistas também descobriram que para haver mudanças significativas no solo, seria necessário, além da matéria orgânica, nutrientes como fósforo, enxofre e nitrogênio. Na conclusão da reportagem, é exposta a maior dificuldade envolvendo carbon farming: os dados dessa pesquisa não dizem respeito a todos os tipos de solos e outras características, e também não levam em conta qual o desempenho de absorção de cada tipo em um ano seco ou úmido, por exemplo. Pesquisas envolvendo a absorção de carbono pelo solo levam anos para obter resultados.

Na verdade, o desenvolvimento das técnicas de captura de carbono, em geral, levam anos. Seja para desenvolver usinas inteiras com sistema de captura, tubulações para transportar e espaço para armazenar o CO2, ou para estudar o solo e o composto que deve ser usado para turbinar o sequestro de carbono de uma região. É possível que no futuro as técnicas de CCS sejam aprimoradas a ponto de deter as mudanças climáticas, mas o IPCC já avisou que não há muito tempo [12].

[1] https://gizmodo.uol.com.br/2014-foi-o-ano-mais-quente-desde-que-se-tem-registro/
[2] https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2013/09/ipcc-reforca-certeza-sobre-responsabilidade-da-bacao-humana-no-aquecimento-globalb.html
[3] https://exame.abril.com.br/mundo/noticias/california-enfrenta-pior-seca-em-1200-anos-diz-estudo
[4] https://www.brasil247.com/oasis/permafrost-o-gigante-adormecido-do-aquecimento-global
[5] https://www.theguardian.com/environment/2014/oct/01/canada-switches-on-worlds-first-carbon-capture-power-plant
[6] http://www.ccsassociation.org/why-ccs/economic-importance/
[7] https://www.scientificamerican.com/article/clean-coal-power-plant-killed-again/
[8] https://www.marinij.com/marinnews/ci_26058891/marin-carbon-farming-project-offers-hope-global-warming
[9] https://www.scientificamerican.com/article/could-carbon-farms-reverse-global-warming/
[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Jatropha_curcas
[11] https://www.theguardian.com/world/2013/oct/29/carbon-farming-its-a-nice-theory-but-dont-get-your-hopes-up
[12] https://www.theguardian.com/environment/2014/nov/19/co2-emissions-zero-by-2070-prevent-climate-disaster-un

Votar na legenda não é mais uma opção em 2018

Artigo preparado e enviado para alguns veículos antes das eleições gerais de 2018. Não houve publicação.

Em tempos pós-revolta geral nacional, onde nos acostumamos a ouvir que "todo político é ladrão", que "nenhum partido presta" e que surgem cada vez mais candidatos tentando se desvencilhar da imagem de político, buscando algo mais próximo a figura do "gestor" ou de "homem de povo"(fenômenos como Trump e Dória estão aí para comprovar), volta e meia surge a figura do eleitor partidário.

Muitas vezes, não nos identificamos com os candidatos a deputado ou simplesmente não tomamos conhecimento de quem são. Dependendo do quão ocupada a pessoa está, ela pode simplesmente não ter tempo, paciência ou não querer mesmo pesquisar individualmente em quem vai votar para deputado estadual e federal. São muitos candidatos e é possível nem saber por onde começar.

O sistema de votos para eleger senadores, governadores e presidente, figuras que tem número fixo de posições a serem escolhidas - no caso de senador, são dois os escolhidos nessa eleição, e nos outros dois cargos, sempre um - é do voto majoritário (bem simples: quem tem mais votos vence). Mas para eleger deputados estaduais e federais, o sistema é do voto proporcional de lista aberta, um pouco mais complicado de entender e desconhecido do público. Nesse sistema, apesar de não ficar bem claro de primeira, votamos no partido (vou explicar um pouco melhor disso depois).

Nessas horas de incerteza quanto ao deputado que deve ser escolhido, surge o voto na legenda como salvação, especialmente quando temos afinidade pelas ideias de um partido, ou temos bem definido nosso voto para presidente, por exemplo. O que é votar na legenda: em vez de atribuir o voto a um candidato específico do partido (o que faz com que o voto conte para o partido e para o candidato), vota-se somente no partido, sem atribuir nada a nenhum candidato.

Com a reforma eleitoral que foi aprovada em 2017, porém, o voto na legenda, que era uma opção válida, acabou sofrendo com o efeito colateral de uma mudança dentro do voto proporcional, e escolher essa alternativa acaba tendo a chance de prejudicar o partido, os candidatos, e fazer seu voto terminar sendo até negativo.

Vamos começar do princípio, explicando como funciona o voto proporcional de lista aberta:

O QUOCIENTE ELEITORAL

Cada estado tem um número específico de cadeiras a serem ocupadas na Câmara e nas Assembleias Estaduais. Esse número de cadeiras é proporcional ao número de habitantes do estado, com limite mínimo de 8 e máximo de 70 representantes no nível federal, e entre 24 e 94 no nível estadual. O cálculo é feito utilizando informações fornecidas pelo IBGE através do Censo. Diferente do Senado Federal, que busca legislar com igualdade de voto entre os estados, sendo cada um representado por três senadores, no congresso o objetivo é representar proporcionalmente a população de cada estado (não é o tema de interesse aqui analisar se essa proporcionalidade está sendo bem executada ou não, mas seria assunto interessante para um ensaio).

Pois bem, dado o número de cadeiras a serem ocupadas por estado, esse número é utilizado para dividir o número de votos válidos que existiram dentro da unidade federativa (votos válidos são todos menos os brancos e nulos). O resultado da divisão de número de votos válidos pelo número de cadeiras é o chamado quociente eleitoral.

Por exemplo, se o estado do Rio Grande do Sul teve 3 milhões de votos válidos e possui 30 cadeiras na Câmara dos Deputados, o quociente eleitoral é de 3.000.000 / 30 = 100.000 votos. Ou seja, para que um partido possa eleger no mínimo um candidato, ele precisa ter tido, na soma dos votos de todos os candidatos, pelo menos cem mil.

O QUOCIENTE PARTIDÁRIO

É como se cada voto se desmembrasse em dois: o mesmo voto é duplamente atribuído para o partido e para o candidato. O voto para o candidato serve para ordená-lo dentro da lista do partido, por isso chama-se o sistema de "lista aberta" - os políticos são ranqueados conforme a quantidade de votos que recebem; e o voto para o partido serve para definir o seu quociente partidário - divide-se o número de votos que o partido recebeu pelo quociente eleitoral.

Por exemplo, o partido P, através de seus três candidatos, recebeu 250 mil votos. O quociente eleitoral é de 100 mil votos. Ou seja, o quociente partidário é de 250 / 100 = 2,5. Isso quer dizer que o partido elege dois candidatos para as cadeiras do congresso. Quem são esses dois candidatos? Os dois melhores posicionados em votos dentro do partido (caso não tenha ficado bem claro). Digamos que tenham sido os candidatos Pedro e João.

PEQUENA ANÁLISE DO EFEITO DO SISTEMA PROPORCIONAL DE LISTA ABERTA

Percebam: com esse sistema, pode ser que um candidato menos votado que outro seja eleito, caso o coeficiente partidário do partido tenha sido maior.

Por exemplo, no nosso caso, digamos que dos 250 mil votos para o partido P, 150 mil tenham sido para Pedro, 60 mil para João e 40 mil para Carlos, o terceiro que ficou de fora, totalizando 250 mil votos. É possível que o partido J tenha enviado um único candidato, Felipe, e ele tenha recebido 80 mil votos, mais do que João, mas menos do que o necessário para que o partido atingisse o mínimo de 100 mil votos para ter uma cadeira na Câmara. Ou seja, apesar de Felipe ter tido mais votos que João, ele não foi eleito.

SOBRE AS MUDANÇAS ELEITORAIS E O VOTO NA LEGENDA

A figura do voto na legenda, até antes da reforma eleitoral aprovada em 2017, era bastante útil e gerava uma certa distorção: o seu voto não influenciava no ordenamento da lista aberta do partido, mas fazia com que o quociente partidário aumentasse. Dessa forma, digamos que 60% dos votos fossem exclusivamente pro partido, os outros 40% iriam definir a ordem dos candidatos, e os mesmos representariam o eleitorado em Brasília tendo sido escolhidos por uma quantidade realmente pequena de pessoas. Mas teoricamente isso era aceitável, porque o que o voto de legenda simboliza é que não importa quem seja enviado pelo partido, porque o eleitor acredita que dentro daquele grupo, as diretrizes que ambos concordam (o político escolhido para concorrer pelo partido e o eleitor que acredita no partido) serão seguidas.

A reforma eleitoral que foi aprovada em 2017, e trouxe algumas mudanças drásticas no sistema eleitoral, que inclusive irão enxugar o número de partidos a partir de 2020, e excluir a lista aberta por coligação - sim, nesse momento a lista aberta considera a coligação como uma coisa única, produzindo um efeito bizarro: digamos que tu votas num candidato do PT e o partido passa do quociente partidário e o segundo da lista é um candidato do PCO, então o seu voto ajudou a elegê-lo, por mais que você dificilmente saiba quem ele é.

A mudança que afeta o voto de legenda é a que cria uma barreira de entrada para todos os candidatos: para ser eleito, ele precisa ter pelo menos uma quantidade de votos igual a 10% do coeficiente eleitoral.

Ou seja, para qualquer um ser eleito, no exemplo dado acima, o candidato precisa ter pelo menos 10% x 100 mil = 10 mil votos. O que isso indica na prática? Que votar na legenda pode fazer com que o partido que você simpatiza fique bem no quociente partidário, mas que os candidatos dele possam não ser eleitos pela falta de votos.

É claro que, com as sobras de cadeiras que essa medida trás, possivelmente os candidatos irão ser escolhidos, mas tudo depende da posição do partido em relação aos décimos no quociente partidário. Pode ser que o partido de oposição ao seu tenha um quociente partidário de 3,6, e o seu tenha 2,7. Nesse caso, as cadeiras que sobraram serão ocupadas pelos candidatos dele primeiro.

Parece que a medida visa evitar que candidatos muito desconhecidos por ventura se beneficiem de outros muito populares e sejam eleitos - o chamado "Efeito Tiririca", já que em 2010 o candidato levou consigo outros cinco políticos da coligação para a Câmara - independente deles terem tido 5, 4, 3, 2 e 1 votos, desde que tenham sido os sucessores na lista aberta.

O voto de legenda é uma espécie de alternativa de lista fechada dentro do sistema de lista aberta. No sistema de lista fechada, a ordem dos candidatos a serem eleitos é definida pelo partido previamente antes das eleições, e o eleitor deve votar sabendo quem vai ser o primeiro a ser eleito. No sistema de lista fechada, só existe o voto de legenda. A diferença é que no sistema de lista aberta, não tem como o eleitor saber qual vai ser a ordem, exceto pelos resultados imaginados.

Não acho que o voto na legenda era a melhor opção nas eleições passadas, justamente por abrir mão do direito de saber quem vai ser o candidato a ir para o congresso, especialmente considerando que até essa eleição, a lista aberta é da coligação, e não do partido. Ou seja, em eleições anteriores, certamente muitos votos de legenda no PT arrastaram candidatos do MDB para a Câmara - e essa não é a intenção desse tipo de voto.

O voto na legenda era uma opção interessante no caso do eleitor ter a intenção de demonstrar sua posição política, mas sem ter tido a disposição de escolher um candidato específico. Agora, com a nova regra da barreira de no mínimo 10% dos votos do quociente eleitoral, o voto de legenda pode inviabilizar que o próprio partido tenha as cadeiras que acaba conseguindo pelo quociente partidário.

Em 2018, é necessário estar atento às mudanças para exercer a cidadania da melhor forma possível. Votar já não é tão fácil, e não são só questões ideológicas: o sistema está sendo alterado.

Como e por que utilizar RSS

Texto originalmente publicado na página O Parrote hospedada no Medium em 11 jun 2017. Republicada pelo baixacultura.org em 27 ago 2018. Disponível em: http://baixacultura.org/rss-uma-ferramenta-para-fugir-dos-algoritmos-das-redes-sociais/

Em março de 2017, o criador da internet, Tim Berners-Lee [1], publicou um texto no jornal inglês The Guardian referente ao aniversário de 28 anos do protocolo web inventado por ele, o World Wide Web, principal forma de utilizar a internet até hoje — e que a maioria de nós, usuários comuns, tratamos como “a” internet. No seu texto, Barnes-Lee é sucinto: ele está preocupado com três coisas na rede moderna. Não há declarações de amor ou histórias de superação brega no seu artigo. A internet está com problemas, e precisa de respostas. Os três desafios na rede atual, segundo ele, são: como o usuário perdeu controle de seus próprios dados pessoais; como é fácil para informações falsas se espalharem na web; e a falta de transparência na propaganda política.

Eu poderia traduzir todo o texto numa tacada só, mas vou me conter e utilizar apenas um parágrafo de referência para onde quero chegar. Sobre a desinformação na web, o criador da coisa toda diz (tradução livre):

Hoje, a maioria das pessoas encontram notícias e informações na web através de algumas redes sociais e buscadores. Esses sites faturam mais quando clicamos nos links que nos mostram, e eles escolhem o que nos mostrar através de algoritmos que aprendem com nossas informações pessoais, as quais eles coletam constantemente. O resultado é que esses sites nos mostram conteúdo que acham que nós vamos clicar — ou seja, desinformação e notícias falsas, as quais são surpreendentes, chocantes ou feitas para atrair nosso interesse, podem se propagar como um incêndio.

A preocupação de Tim Bernes-Lee quanto a desinformação e aos algoritmos das redes sociais não é nova, e tem sido amplamente divulgada [2]. O processo de adquirir informações está passando por alterações que afetam profundamente o jornalismo e a mídia como um todo. Na verdade, o jornalismo vem sofrendo mudanças drásticas e questionamentos sobre seu modelo de negócios [3]. Dentro dessa preocupação geral e do cenário caótico, escrevo para propor uma ajuda ao usuário.

A INTERNET ATRAVÉS DO TEMPO

Nesses vinte e oito anos de existência da internet, muitos hábitos e muitas ferramentas já foram tendência, e os usuários mais antigos devem lembrar de uma tonelada desses. Para o brasileiro que estava lá quando tudo começou por aqui, aquele que usava internet discada durante a madrugada porque era de graça e acordava todo mundo em casa porque o barulho do modem era insano, podemos citar o Netscape, Cadê e o ICQ como ferramentas comuns. Depois, se estabeleceram Google, Orkut, Youtube, Kazaa, MSN, Fotolog, MySpace, Blogger, WordPress, os portais Uol e Terra, por exemplo. Hoje, nossas ferramentas, chamadas “aplicativos”, são Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp, Telegram, Snapchat, Tumblr, Medium, Netflix.

(É claro que essa linha do tempo de sites e serviços não ficou extremamente precisa, cada usuário conheceu alguma ferramenta a algum tempo, e podem haver questionamentos — um amigo meu ainda usa o ICQ no seu ambiente profissional, por exemplo. É claro que também esqueci um monte de outras saudosas aplicações, mas isso não vem ao caso.)

A tendência gritante entre os serviços citados é a transformação do acesso: o computador vem sendo abandonado. O navegador utilizado, seja ele o Firefox, Chrome, Opera ou Safari, não é mais necessário para acessar nenhum dos aplicativos listados por último. O abandono do desktop e dos browsers aponta para uma das novas tendências da internet: o cercamento do usuário. Tirando aquelas pessoas que trabalham na frente do computador e tem tempo livre para surfar na web e pesquisar páginas à vontade, quantos hoje em dia têm uma lista de sites favoritos? O usuário tem acessado suas informações pelos mesmos aplicativos e redes sociais. Se você não tem o aplicativo da Folha ou do Globo ou de qualquer outro grande jornal no celular, eu duvido que se informe por outro meio que não o Twitter ou Facebook. E a sua visão das notícias está condicionada a um algoritmo muito mais poderoso que a antiga disposição das informações nos cadernos dos jornais.

PÓS-INTRODUÇÃO: REDESCOBRINDO UMA FERRAMENTA

A partir desse ponto, eu poderia começar a direcionar o texto para qualquer um dos aspectos mencionados por Tim Bernes-Lee no seu parabéns-alerta de aniversário, os quais indicam uma internet prejudicada e prejudicial para o usuário comum: compartilhamento involuntário dos dados pessoais e privados; alienamento do usuário através de algoritmos que podem simplesmente apagar um assunto ou uma pessoa da sua vida; centralização da forma de obter informação; propaganda política disfarçada de informação; etc., etc. Mas o meu interesse nesse assunto todo é apresentar uma ferramenta (spoilers estão no título do texto), e fazer o leitor entender porque ela pode ser útil nesse mundo preocupante em que estamos. Quando eu digo preocupante, quero dizer, capaz de fazer um magnata sem nenhum preparo, intolerante e conservador ser eleito presidente do país mais poderoso do mundo.

O uso dessa ferramenta ajuda a evitar que casos como o de Myamar, um país asiático que mudou de um regime ditatorial para uma democracia há poucos anos, se tornem cada vez mais comuns. O Buzzfeed News fez uma matéria impressionante [4] mostrando a inclusão digital do povo do pequeno país. Essa inclusão — feita através do acesso total da internet de uma hora pra outra — é integralmente baseada no Facebook (alguns usuários acreditam que “internet” e “Facebook” são a mesma coisa, deixando de aproveitar a vastidão de conteúdo online), e os novos hábitos virtuais da população têm aumentado a intolerância religiosa do país.

Não estou me referindo a um produto de uma nova startup que vai salvar o mundo. Não é um app que você baixa e milagrosamente muda a rotina da sua vida. É um recurso que está disponível na internet há muito tempo e que nunca foi muito popular, mas que se mostra poderosíssimo num mundo de algoritmos pré-definidos com critérios secretos de exibição de resultados. Do que eu estou falando? Do RSS. Às vezes chamado de feed, ou feed RSS, ou Atom, etc.

EM TERMOS TÉCNICOS E PRÁTICOS: O QUE É RSS

RSS é uma sindicação web. Sindicação é um termo oriundo da televisão, e uma prática muito comum em países como os Estados Unidos, onde canais de TV locais compram e vendem programas para exibição ao vivo e/ou gravada de outros canais em outras localidades. Qualquer ferramenta de sindicação web, então, seria uma adaptação disso: um meio de reproduzir o conteúdo lançado por um site através de outro site ou outro programa, enfim. A sigla RSS significa Really Simple Syndication, ou seja, “Sindicação Realmente Simples”.

Muitos desenvolvedores trabalharam nessa ferramenta desde seu surgimento. Ela começou por iniciativa de alguns técnicos do falecido navegador Netscape, que lançaram a versão 0.9. Depois que o browser foi comprado pela AOL, o projeto foi deixado de lado, mas outros programadores continuaram aprimorando a sindicação, até ela chegar na versão 2.0 em 2005, na qual se mantém até hoje. A história do RSS é cheia de personagens e conflitos por direitos autorais. Por ter sido um trabalho abraçado pela web e desenvolvido abertamente durante algum tempo, os técnicos da Netscape tiveram problemas quando quiseram registrá-lo como propriedade intelectual, especialmente depois de ter abandonado a ideia na versão 0.9.

(Para quem quiser ler toda a história, está disponível na Wikipédia em português. [5])

Em termos de programação, o RSS é o que e os programadores chamam de “dialeto” dentro da linguagem XML (eXtensible Markup Language), a qual é utilizada para vários fins de organização de páginas. Olhando um arquivo XML puro, ele parece com HTML, exceto que podem ser criados novos dialetos e cada dialeto pode possuir diversas tags — daí o “eXtensível” no nome. RSS é então um arquivo em linguagem XML que é disponibilizado e atualizado automaticamente pelo site que o gera. Ele está disponível na maioria dos sites como uma página própria, a qual é facilmente acessível através do famosos ícone do RSS.

Resumindo tecnicidades em termos simples, RSS é um arquivo que se atualiza sempre que o site atualiza também. Qual o interesse nisso? Arquivos em linguagem XML não foram feitos para serem consumidos diretamente por humanos, mas sim interpretados por outras aplicações que então disponibilizam a versão final para as pessoas. O RSS se torna realmente interessante quando utilizado junto aos chamados leitores ou agregadores.
Como parecia o agregador mais famoso de todos, o Google Reader, antes dele ser extinto

Através dos agregadores, o usuário pode se inscrever nos seus sites favoritos e acompanhá-los diretamente pelo leitor de feeds. Todas as atualizações aparecerão lá diariamente e o usuário não precisa visitar a homepage. A princípio, pode parecer pouco interessante para quem acessa a homepage de apenas um site, por exemplo, o G1. Mas mesmo para esse usuário, é melhor utilizar o leitor de feed, pois não agride visualmente, não distorce as manchetes, e não tem publicidade. Texto puro, organizado para leitura no agregador, separado em postagens, classificados apenas em “lidos” ou “não lidos”.

O RSS se torna realmente interessante para quem gosta de acompanhar mais de uma página na web. Ele te dá o poder de concentrar todos os sites em só um e poder decidir se quer ler certo texto ou não, de forma simples!! Todo o conteúdo é listado verticalmente, tornando-se uma questão de escolha intelectual pura do leitor. Apesar de absurdamente simples, vou descrever um pequeno tutorial para começar a utilizar um agregador RSS e como adicionar os feeds.

UTILIZANDO RSS: INTRODUÇÃO AOS AGREGADORES

Basicamente, o que deve ser feito é baixar ou criar uma conta online em algum agregador de RSS. Existem centenas pela internet. Antigamente, essa função era praticamente monopolizada pelo Google Reader, um dos melhores leitores de feed que já houve, especialmente pela sua função social de compartilhar os textos lidos com outros usuários através de um verdadeiro Facebook de textos. Porém, o Google Reader foi descontinuado pelo Google devido à baixa popularidade (a quantidade de produtos do Google que foram abandonados por popularidade, independente de quão boa a ideia era, assusta).

Um dos agregadores mais populares hoje em dia é o feedly, o qual adicionou uma penca de funções nos últimos anos, as quais, pra mim, só afastaram o usuário comum. Logo que o Reader acabou, eu tentei utilizá-lo, mas a bagunça visual me fez desistir. Outro feed conhecido é o The Old Reader, o qual se propõe a ser exatamente igual ao antigo Google Reader (o nome diz tudo), mas, pelo menos nas vezes em que tentei usar, pareceu extremamente instável e lento. Atualmente, utilizo o Digg Reader — depois de muitas tentativas com softwares baixados ou clientes de email (sim, é possível ler feeds de sites usando o Outlook, por exemplo). Não lembro como descobri que o Digg tinha um agregador, mas é esse que recomendo, por estar utilizando a mais tempo — mais tempo até do que usei o Google Reader. O aplicativo para celular também é muito simples, e permite leituras agradáveis dentro do possível (ler no celular nunca vai ser agradável). É possível se inscrever usando email ou alguma conta já registrada no Google, Facebook ou Twitter.

O Digg Reader é a minha recomendação pessoal, mas existem outros milhões de agregadores por aí. Como dito antes, é possível ler os feeds RSS até mesmo no cliente de email, o que vem bem a calhar quando se é usuário de um desses softwares, como Thunderbird ou Outlook. A configuração pode demorar um pouco mais, mas não é nenhum bicho de sete cabeças.

UTILIZANDO RSS: CATANDO OS LINKS PARA FEEDS

Baixado o software ou inscrito no site, a segunda etapa é procurar o feed dos seus sites favoritos. Provavelmente, o famoso botão de RSS vai estar bem no alto ou bem embaixo do site, junto com os ícones de Facebook, Twitter e etc. Clique nesse botão, ele vai te direcionar para a página do arquivo XML. Copie o link da URL. Geralmente, ele se parece com http://[site].com/feed ou http://[site].com/rss ou algo do tipo, mas isso não é uma regra. Entre no seu agregador favorito e vá em alguma coisa parecida com “adicionar feed RSS” ou “inscrever-se em RSS” e cole o link lá. Pronto, você já está inscrito. A partir de agora, sempre que o site atualizar, o feed vai automaticamente carregar o texto no seu agregador. Ele estará disponível exatamente como no site, sem precisar sair do leitor.

Em alguns agregadores, está incorporado uma ferramenta de pesquisa de feeds, o que é ótimo, porque aí você não precisa procurar o link no site. Só digite o nome do site na busca, e ele vai providenciar o feed. O que pode acontecer é o site não possuir RSS. O G1, por exemplo, não tem. Nesse caso, recomendo começar a ler outro site, porque esse não está conforme os bons hábitos da internet, o que me leva a outro ponto: o feed não é só uma ferramenta qualquer, ele é histórico para a web.

O RSS ESTÁ POR TODA A INTERNET, SÓ VOCÊ NÃO VIU

Antigamente, redes sociais como Twitter e Facebook geravam RSS para cada um dos perfis na rede. Era excelente, porque você poderia seguir as pessoas que você gostava sem nem mesmo possuir conta na rede social. Se adicionasse o link no seu agregador, todos os tuítes da pessoa apareceriam como atualizações, por exemplo. A função foi descontinuada pelas grandes redes. Hoje em dia, existem sites, como Queryfeed, que substituem a função nativa e geram os feeds de perfis. Um excelente incentivo para abandonar as redes e continuar acompanhando as páginas de interesse. Sites de torrent como Pirate Bay disponibilizam o link de RSS de todo o site [6], o que leva a uma prática interessante para os usuários: baixar automaticamente arquivos a partir do momento em que o feed atualiza com seus links magnéticos. Você pode se inscrever no link da sua série favorita e baixar os episódios assim que foram disponibilizados, por exemplo. Os clientes de torrent possuem agregadores de feed que são utilizados especificamente para essa prática, conhecida como Broadcatching.

Por fim, o melhor exemplo do poder do RSS na internet e da sua influência na história da redes são os podcasts. O conceito de podcast é exclusivamente baseado no uso de RSS para disponibilizar um arquivo de áudio baixável. Os podcasts feitos em site de streaming como Youtube e Soundcloud se proliferaram nos últimos anos, mas nenhum deles, se fosse catalogado, seria um podcast segundo o conceito original. Conforme definido pelo escritor Warren Ellis em sua newsletter [tradução livre], “Um podcast é um arquivo de áudio que um programa de podcasts pode capturar e baixar para um dispositivo. Um arquivo no Mixcloud ou Soundcloud não é um podcast”. É claro que o conceito original pouco importa para o sucesso desses programas, e até acredito que quem está fazendo audioblogs no Youtube hoje deve ter mais sucesso do que a maioria de podcasts perdidos em blogs, buscando alguns assinantes no seu feed que é baixado por aplicativos de celular. A importância da definição de podcast, nesse caso, é mais histórica que tecnológica: em 2004, não existia streaming, e o download automático do seu programa favorito era como a assinatura do seu jornal ou revista favoritas, que chegavam — esse verbo cada vez mais no passado — direto na sua casa.

O RSS É POLÍTICO

Sei que citar exemplos de torrent (uma tecnologia que, apesar de revolucionária, tem sido deixada de lado pela comodidade do streaming) e podcasts (um tipo de conteúdo que sempre foi marginal, com poucos exemplos de verdadeiro sucesso) pode parecer pouco mercadológico para o produto que estou tentando vender — e hoje em dia tudo tem que ser observado dentro de uma perspectiva do marketing. Mas não peço desculpas, porque a lógica é contrária: antes da internet, a criação de conteúdo e a informação eram amplamente monopolizadas. O interesse das massas era facilmente direcionado conforme o conteúdo exposto pela mídia através dos meios de comunicação. Com o surgimento da rede, abriu-se o espaço necessário para buscar novas fontes de informação, controle pessoal do que se consome e liberdade de pensamento. O relato mais preciso sobre a transformação da web foi feita pelo documentarista Adam Curtis no seu filme mais recente, HyperNormalisation [7] [tradução livre]:

A internet atraiu as pessoas porque era hipnotizante. Era um lugar onde você poderia explorar e se perder da forma que quisesse. Mas através da tela, como num espelho de duas vias, agentes estavam te assistindo e prevendo e guiando a sua mão no mouse. […] Com o aumento na quantidade de dados obtidos pelos sistemas online, novas formas de controle começaram a surgir. As redes sociais criaram filtros, algoritmos complexos que observavam o que o indivíduo gostava, e os servia com mais disso. No processo, usuários começaram a ser atraídos, sem notar, para bolhas que os isolavam de enormes quantidades de outras informações. Eles só viam e ouviam o que gostavam. E o feed de notícias, cada vez mais, excluía qualquer coisa que poderia mudar seu ponto de vista pré-existente.

O controle vem sendo retomado por grandes grupos. Em um celular de usuário comum, o sistema operacional, o navegador, o buscador e o canal de vídeos (para dizer o mínimo) são todos da mesma empresa, o Google. Além disso, o Whatsapp, o Facebook, o Instagram e o Messenger são todos também da mesma empresa. Por isso, o uso de RSS, apesar de parecer datado, é essencial retomarmos as rédeas do consumo de informação, descentralizar e desalgoritmizar nossa internet. A comodidade tem nos levado para o mesmo lugar em que estávamos antes, mas o grande ponto da rede é não ser cômoda: é aproveitar a oferta máxima de conteúdo que pode existir para fazer o que você quer, e não deixar que algumas empresas te indiquem o caminho.

[1] https://www.theguardian.com/technology/2017/mar/11/tim-berners-lee-web-inventor-save-internet
[2] https://papodehomem.com.br/para-o-facebook-voce-e-estatistica
[3] https://papodehomem.com.br/o-que-podemos-fazer-para-salvar-o-jornalismo
[4] https://www.buzzfeednews.com/article/sheerafrenkel/fake-news-spreads-trump-around-the-world
[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/RSS
[6] https://thepiratebay.org/rss
[7] https://en.wikipedia.org/wiki/HyperNormalisation

Como pesquisar na web anonimamente

Texto originalmente encomendado e publicado no site baixacultura.org em 24 out 2018. Pode ser acessado aqui: http://baixacultura.org/como-pesquisar-na-web-anonimamente/

A internet é tão intrínseca ao dia-a-dia moderno que esquecemos de observar a sua estrutura, o espaço que habitamos dentro dela. É como andar de carro: nós nunca prestamos atenção do que são feitas as paredes internas e o forro. O problema é quando o forro pode ser ruim para você. Pra ser claro o bastante, vou começar descrevendo o grande cenário e então ampliar um ponto específico, fazendo um verdadeiro zoom in em câmera lenta, pra que possamos entender a importância da coisa toda.

GRANDE CENÁRIO: O ACESSO À INTERNET

A forma como navegamos na internet está mudando. Desde o ano passado, os brasileiros acessam mais a rede pelo celular do que pelo computador. 49% das pessoas hoje em dia não usam mais computador. [1] No mundo, 99,6% dos smartphones têm como sistema operacional o Android ou iOS, sendo que 81,7% disso é só o Android. [2]

Ou seja: atualmente, o Android é o meio de acesso à internet mais popular que existe no Brasil.

A página oficial do Android é essa. [3] Pra quem não sabe, esse é um sistema operacional de código aberto, que pode ser modificado pelo usuário. É desenvolvido pelo Google. Ele está disponível de forma gratuita para que possa ser usado por qualquer pessoa ou empresa que queira colocar um sistema operacional no seu dispositivo móvel.

É como se metade do serviço já estivesse resolvido de largada. Basicamente o que todas as empresas desenvolvedoras de smartphone fazem hoje em dia é o seguinte: se debruçam sobre a concepção do aparelho – seu processador, memória, design da tela, câmera, alto falante, resistência à água, etc. Depois entram no site que referenciei, baixam o Android e instalam no aparelho, fazendo pequenas modificações pra parecer personalizado pela empresa. Assim o usuário tem a impressão que tem um celular da LG que não é igual, e ter a leve ilusão de que é um sistema melhor do que, o seu antigo aparelho da Samsung, ou qualquer empresa que seja.

Ok, agora entra a dúvida econômica: o que o Google ganha por disponibilizar um sistema operacional inteiro e completo pra que quase todo o mercado de telefones celulares do mundo se aproprie da coisa e não precise distribuir o seu próprio, se ele não cobra nada por isso?

AMPLIANDO (1): A EMPRESA GOOGLE E SEU MODELO DE NEGÓCIO

Resposta: informação.

O que ele ganha é pura e simples quantidade infinita e incalculável de informação provinda de bilhões de usuários que são obrigados a criar um cadastro, vinculando nome, email e senha, pra acessar o aparelho.

Percebam: tu comprastes um celular belíssimo, de até cinco mil reais, um verdadeiro milagre da tecnologia, capaz de tirar fotos que nenhum profissional já tenha visto em um aparelho tão compacto, capaz de reproduzir som como um rádio de parede faria nos anos 50, mas tu não pode usar ele, a menos que coloque o nome e o email na primeira tela do aparelho.

Você é obrigado a dividir suas informações se quiser usar o aparelho que você já comprou! É uma nova relação, totalmente inédita no capitalismo. Não basta você adquirir. Agora você é parte da coisa. Fica perceptível: o acesso ao sistema Android é um serviço não fornecido pelo aparelho celular que você comprou. O sistema Android é um serviço remunerado pelo usuário. Mas ele não é pago financeiramente. Ele é pago com informação: dados pessoais.

É genial a atitude de lançar um sistema operacional trabalhando como grande coletor de dados, e oferecer de graça para as fabricantes de telefone. O modelo de negócio do Google é baseado em monetizar dados de uso das pessoas. Esses dados se transformam em informação segmentadíssima para que as empresas possam direcionar seus anúncios. O Google vende o oposto de um outdoor: em vez de fazer um banner gigantesco visualizado por todos os tipos de públicos e torcer pra que as pessoas certas enxerguem o novo produto, o anúncio vai diretamente para aqueles que certamente têm algum tipo de vínculo com o produto novo. Quantos de nós já pesquisamos “Nike” no Google e passamos semanas visualizando anúncios de tênis da empresa, como se fosse mera coincidência? O usuário é considerado uma verdadeira ovelha no esquema, um consumidor passivo, e que não vai notar que está sendo caçado. E será que não deixamos de reparar nessas coisas, realmente?

Quem vai pagar para anunciar num outdoor ou num jornal quando uma empresa de tecnologia te promete enviar anúncios para as pessoas exatamente certas, por um preço menor e por menos trabalho? Por que por um preço menor e por menos trabalho: porque o Google coleta os dados de graça do usuário. Ele não precisa nem pedir, já estamos fornecendo instantaneamente a todo momento.

AMPLIANDO (2): OS DADOS COLETADOS PELO ANDROID

Diversos tipos de informação, como a sua localização ou quantos e quais aplicativos estão baixados, são acessáveis para o Google. Está nos termos de uso. O que se pode fazer sobre isso? A menos que se comece a utilizar outro sistema operacional, não baseado em algum login, nada. O mercado está bem centralizado entre ter uma conta Google ou uma conta do iCloud.

Recentemente, uma investigação da Associated Press demonstrou que o Google rastreia sua localização através do GPS do celular, mesmo que a opção “localização” esteja desativada. [4] Estão armazenados nos servidores da empresa na Califórnia, nos Estados Unidos, exatamente todos os lugares que tu frequentas levando o celular no bolso.

Seria melhor começar a deixar ele na gaveta. Mas como parar de usar o Android? Meio difícil, já que ele é a única opção popular no mercado além do iOS, oferecido pela Apple pra quem compra um iPhone.

AMPLIANDO (3): COMO SE NÃO BASTASSE O ANDROID, AINDA TEMOS OS APLICATIVOS DO GOOGLE

Perceba: os dados que eu comentei são aqueles adquiridos apenas pelo Android. Devemos levar em consideração ainda os dados que são enviados para o Google através dos aplicativos da empresa que estão nativamente no aparelho, e possivelmente são usados pelo usuário.

Sim, porque ao usar o Chrome, o buscador Google, o Youtube, o Play Música, o Fotos, o Tradutor, e diversos outros aplicativos da empresa, esse acesso é vinculado ao seu email e sua conta Google, e enviado para os bancos de dados da empresa. É possível criar a identidade da pessoa através do uso do celular. O Google pode saber quando você ficou solteiro, se localizar o momento que você adquiriu e instalou o Tinder no seu celular, por exemplo.

Recentemente, o Google recebeu uma multa de 19 bilhões de dólares da União Europeia, pelo que foi considerada uma atitude monopolista de mercado [5]: o buscador do Google e o navegador Chrome vêm como ferramentas padrão do sistema, favorecendo os próprios produtos. A empresa se comprometeu a mudar essa configuração, como resposta à multa. Nas próximas atualizações do Android, então, apesar dos aplicativos certamente continuarem instalados, eles não vão ser mais os “programas padrão”.

O efeito dessa medida é relativo, porque nada impede do usuário de transformar tanto o navegador quanto o buscador em padrões novamente, já que esses são os mais famosos e mais naturalizados dentro da cabeça das pessoas.

E a menos que tu não se importe nem um pouco de ser explorado por uma empresa e não ache que o livro 1984 termine tão mal assim, é importante pensar em formas de diminuir o sequestro de seus dados pessoais.

Então entra a parte menos entristecida desse texto: se não há muitas opções sobre o que fazer para não ser rastreado, pelo menos podemos mitigar o problema, e atuar positivamente em direção a outros serviços, que não baseiam seu modelo de negócios em utilizar dados do usuário, e valorizar essas empresas.

AMPLIANDO (4): UMA SUGESTÃO DE APLICATIVO PARA DIMINUIR O SANGRAMENTO DE DADOS

De dentro do Android, infelizmente ainda não temos soluções de saída. Mas podemos buscar alternativas para os aplicativos da empresa que são usados com naturalidade pelo usuário.

Nesse artigo quero apresentar uma das possíveis opções para vários serviços do Google. Uma alternativa à solução do Google mais clássica de todas – e que fez a empresa ser a gigante bilionária que é hoje: o buscador.

Talvez um ou outro usuário da internet mais aventurado já tenha ouvido falar no DuckDuckGo, mas acredito que a maioria não. Por isso acho tão importante apresenta-lo: o buscador do pato já existe há dez anos e se tornou relativamente famoso pela sua política avessa ao Google.

O DuckDuckGo foi criado em 2008 e divulgado primeiramente para usuários do Reddit. Pouco menos de um ano depois de entrar no mercado, eles aderiram à política de não rastrear o usuário, e se tornaram conhecidos pelo ousado outdoor lançado em 2011, na estrada californiana que leva à sede do Google, em que anunciam: “O Google te rastreia. Nós não.”.

Entrando em duckduckgo.com, é muito fácil de assimilar os conceitos da empresa: logo é sugerido que seja instalada uma extensão no navegador que bloqueia os anúncios e rastreadores do Google espalhados pela internet. (Sim, eu nem cheguei a mencionar isso, mas o Google não só coleta informações através de pesquisas no navegador e o uso direto dos aplicativos deles, mas também com rastreadores em até 75% dos sites da internet.)

A empresa tem como principal bandeira a privacidade do usuário. No seu blog, chamado Spread Privacy (Espalhe Privacidade, em português), eles dão dicas de como navegar com segurança online. Ao entrar no seu site pela primeira vez, é sugerido que torne o DuckDuckGo o navegador padrão, e use a ferramenta de bloquear os rastreadores do Google.

“Mas nenhuma empresa seria benevolente à toa. O que eles ganham com isso? Se anúncios dão dinheiro através da coleta dos dados, como eles podem se sustentar?” Você pensa, cético, questionador. E tem razão. Nós sempre devemos desconfiar ao adotar sugestões, especialmente de empresas digitais, que hoje em dia trabalham todas com informação.

Talvez eu me prove errado em algum momento futuro, mas a verdade é que o modelo de negócios do DuckDuckGo não envolve a personalização dos anúncios e resultados de busca. A empresa ganha dinheiro através de cliques em anúncios também, mas não aqueles baseados nos seus interesses, e sim naquilo que foi pesquisado. A segunda fonte de receita da empresa é uma parceria com Amazon e Ebay: os resultados de busca para esses sites apresentam códigos personalizados do DuckDuckGo. Caso você compre em algum desses sites através da pesquisa feita no DDG, eles ganham uma comissão.

Como eu sei que o buscador é seguro? Porque ele não tem nenhum tipo de login. Perceba: a forma das empresas vincularem os dados coletados à alguma pessoa é através do email e senha que são cadastrados no início do uso. Isso serve pra todos os aplicativos. Justamente por isso eu evito instalar aplicativos que pedem login, e quando não tenho alternativo, uso um email “falso”, que serve só pra esse tipo de cadastro, especialmente em aplicações muito específicas, que se tornam inúteis fora daquela função que eu preciso naquele momento.

Outro fato que valida a integridade da ferramenta de busca é o fato de ter se tornado, recentemente, o buscador padrão do navegador Tor, o mais seguro da internet.

AMPLIANDO (5): COMO INSTALAR E UTILIZAR O DUCKDUCKGO

Acho que quanto à instalação, não precisamos esticar muito. Baixando o aplicativo no celular, ele te sugere que se transforme no buscador padrão, e você ainda pode acessá-lo diretamente colocando na sua tela inicial e clicando em cima.

No navegador, ao entrar no site duckduckgo.com, ele te sugere instalar a extensão que transforma o DuckDuckGo em buscador padrão e também bloqueia os rastreadores do Google. Caso não queira fazer isso, também é possível torná-lo apenas buscador padrão, mexendo nas configurações do navegador. Nesse caso, siga o passo a passo de Rodrigo Ghedin no jornal Gazeta do Povo. [6]

Usar o DuckDuckGo é diferente do Google especialmente nos resultados. O usuário estranha no início a falta de personalização, mas eu considero os resultados impessoais melhores e mais interessantes.. No caso do usuário estar buscando uma comodidade do dia-a-dia, como, por exemplo, “chaveiro”, é possível que os resultados não sejam úteis, caso tu não descreva a cidade em que está. O DuckDuckGo não possui nenhuma forma de saber a sua localização, e nesse sentido ele não pode ajudar. Então, em vez de escrever só “chaveiro”, é melhor escrever “chaveiro (nome da cidade)”.

No mais, os resultados diferentes são muito bons para abrir a mente do usuário. Normalmente, a primeira página de resultados do Google é sempre igual, e direciona para os mesmos sites: o Youtube, alguns sites de notícias mais famosos, etc. Para encontrar conteúdo baixável, por exemplo, é muito melhor usar o DDG. No Google, devido à restrições de direito autoral, os resultados são quase sempre uma busca infrutífera.

DESVIANDO: CONSIDERAÇÕES SOBRE PRIVACIDADE

O objetivo aqui não é apresentar o DuckDuckGo como uma ferramenta final capaz de te salvar da exploração de dados feita na internet atualmente. Acho que isso fica claro especialmente pela limitação do uso: a empresa atua somente como ferramenta de busca (e bloqueador de rastreadores, caso seja baixada a extensão). Esse é um dos serviços fundamentais que usamos na internet, mas muitos outros continuam a nos rapinar, em níveis muito mais básicos de acesso, como o que foi mencionado sobre o Android.

Edward Snowden já falou muito mais e melhor sobre isso do que eu. Nenhuma ferramenta sozinha garante privacidade na internet. [7] Estamos cercados pelo sequestro de informação, especialmente porque se tornou parte do modelo de negócios de várias empresas.

A apresentação do DuckDuckGo que faço tem como objetivo específico convencer o leitor a mudar de buscador. Mas tenho esperança no objetivo geral demonstrar algo maior que isso: mudar o pensamento relacionado ao consumo de ferramentas e aplicativos. Depois do escândalo Cambridge Analytica, foi amplamente difundida a frase “se o serviço é grátis, o produto é você”, que já circulava entre as iniciativas mais preocupadas com privacidade da rede. Apesar disso, a ponte para o usuário atravessar, o caminho para abrir mão dos serviços coletores de dados, ainda é espinhoso e pouco claro.

Basicamente, quando se utiliza algum serviço online, deve se observar a presença do cadastro e aceitação dos termos de uso: imagine que absolutamente tudo que é feito dentro da aplicação estará relacionado ao seu email, nome de usuário e senha.

O quanto daquilo que se faz dentro do aplicativo você quer que seja conhecido? Por exemplo: muita gente não se dá conta que acesso ao Google Chrome logado na conta Google, mas o faz, e todo seu histórico é salvo e relacionado à sua forma de utilizar a internet. E tudo isso conta na hora de desenhar o seu perfil e vendê-lo aos anunciantes.

Quanto à isso, podemos agir de forma positiva, procurando serviços que não se baseiam em coleta de dados para tornarem-se viáveis. E depois disso, podemos esperar pela ação capitalista: se as empresas de tecnologia e informação não conseguirem mais segmentar os usuários, anunciantes buscarão outros meios, e o modelo estará diminuído – até possivelmente encerrado.

CONCLUSÃO: O QUE INTERESSA À UMA EMPRESA

O DuckDuckGo defende que é possível uma organização se sustentar sem roubar os dados do usuário. Acho que você e eu poderíamos defender também.

[1] https://tecnoblog.net/252838/celular-principal-meio-acesso-a-internet-brasil-tic-domicilios-2017/
[2] https://www.theverge.com/2017/2/16/14634656/android-ios-market-share-blackberry-2016
[3] https://developer.android.com/
[4] https://tecnoblog.net/255495/google-privacidade-historico-localizacao/
[5] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/07/uniao-europeia-multa-google-em-r-19-bi-por-pratica-anticompetitiva-com-android.shtml
[6] https://www.gazetadopovo.com.br/manualdousuario/trocar-google-duckduckgo/
[7] https://theintercept.com/2015/11/12/edward-snowden-explains-how-to-reclaim-your-privacy/

Guia básico sobre TEDs bancárias

Durante o período que fui estagiário no Banrisul, estive responsável por realizar a Transferência Eletrônica Disponível (famosa TED) nos canais de Internet Banking para os clientes que estavam na agência e não sabiam como efetuá-la.

Nesse período, tirei muitas dúvidas para diversos colegas e amigos sobre como realizar uma TED, seu modo de funcionamento, pré-requisitos, etc. Acontece que existem muitas dúvidas sobre TEDs, e resolvi escrever esse post como guia para usuários sobre como utilizá-las.

TED é o modo de transferência interbancária (ou seja, você é cliente de um banco e quer transferir valores para um destinatário em outro banco) mais prático e comum no mercado financeiro atualmente.

As TEDs são uma modalidade participante do SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro), que é responsável por todas as transferências de valor no mercado brasileiro, como pagamento de cheques, DOCs, pagamentos de cartão de crédito, etc.

Ao serem introduzidas no SPB em 2002, as TEDs tinham um valor mínimo de transação de R$ 5.000,00. Por isso, até hoje muita gente acha que pra fazer TED é preciso que seja respeitado um valor mínimo, automaticamente sugerindo que seja feito DOC (Documento de Ordem de Crédito) caso o valor a ser transferido seja pequeno. Essa informação é defasada, uma vez que o limite mínimo para transferências via TED foi sendo reduzido gradativamente até ser eliminado em 2016 pela FEBRABAN.

O uso de DOCs ainda hoje em dia se dá muito por essa noção errada, e gera transtornos, uma vez que o sistema de DOC é antigo e acarreta em prazos demorados, já que o DOC só é creditado no dia seguinte à operação. Ainda por cima, caso o DOC tenha alguma informação errada (se o número da conta, agência, CNPJ ou CPF do destinatário estiver digitado errado), o valor do DOC volta para a conta remetente somente no dia posterior à tentativa de entrega - ou seja, o remetente demora até dois dias para receber o valor de volta caso o DOC tenha sido feito incorretamente.

As TEDs, por sua vez, demoram no máximo meia hora para serem efetivadas, e caso algum número tenha sido informado incorretamente, o valor é devolvido à conta depois desse período. É um sistema rápido e seguro para a confirmação de transferências.

Para realizar uma TED, são necessárias somente as seguintes informações do destinatário: banco, agência, conta corrente, nome e CNPJ/CPF. Além disso, é preciso informar a finalidade (de uma lista pré-definida) e o valor (sem valor máximo ou mínimo para realização).

Quanto à tarifação, é cobrado pela TED somente um valor fixo, definido pelo banco na sua política comercial, e disponibilizado para os clientes na cesta de produtos. É ilegal a cobrança de taxa percentual sobre o valor da TED.

Os valores máximos a serem transferidos via TED podem ser definidos pela política dos bancos em relação aos canais de atendimento. Por exemplo, é possível que o banco defina um valor de, digamos, R$ 5.000,00 dentro do aplicativo móvel. Esse tipo de medida é tomada por segurança (em caso de hackers ou furto), e deve ser consultado na política do banco quanto aos canais de atendimento.

As TEDs podem ser realizadas para o mesmo titular em outro banco (mesmo nome e CPF/CNPJ) ou outro titular em outro banco. Transferências para outro titular no mesmo banco (por exemplo, cliente Banrisul para cliente Banrisul) são feitas no sistema interno do banco e normalmente são creditadas na mesma hora, não caracterizando TED.

As TEDs são irreversíveis e não estornáveis. Caso algum valor seja transferido para o destinatário errado por acidente, é necessário que seja solicitado a ele que devolva o valor para o remetente, independemente da importância não ter sido creditada na conta do destinatário ainda. Uma vez enviada, só resta torcer pra que ela não seja efetivada ou buscar o dinheiro de volta.

Acho que isso resume o funcionamento das TEDs, um método de transferência moderno, seguro e rápido do sistema financeiro brasileiro. Mais prático e efetivo que utilizar cheques, mais barato que ordens de pagamento (não obrigatoriamente, mas convencionalmente) e mais rápido que DOCs.

Espero que esse informativo seja útil para alguém!

Evite ferramentas com login

Se tem um tipo de rotina que eu gostaria de orientar os amigos a realizar, é nunca utilizar nenhum app ou site que peça cadastro pra te entregar o serviço.

Ok, eu sei que já estamos todos nas redes sociais, e o ponto aqui não é o clássico saia das redes sociais, apesar disso fazer muito sentido. Estou falando: caso tenha mais algum app que tu precise usar, como eu por exemplo que estava catando um aplicativo de finanças pessoais, busque a opção que não começa com uma tela nojenta de bloqueio, dizendo "já é cadastrado? faça login ou inscreva-se", ou que pelo menos torne isso opcional (como o Standard Notes).

Antigamente essa coisa de entregar dados pra toda e qualquer plataforma não existia, as ferramentas eram disponibilizadas pelo interesse do desenvolvedor ou da comunidade desenvolvedora, mas com o passar dos anos surgiram as empresas digitais e o modelo de negócios delas é saber quem é cada usuário e entender seu comportamento de uso.

Com o avanço tecnológico os computadores podem processar grandes quantidades de dados e assim qualquer app porcalhão pode exportar informações de todos os usuários ao mesmo tempo e acompanhar como eles consomem a ferramenta que é oferecida. Como a empresa pode se beneficiar disso? Duas formas: melhorando a definição do alvo consumidor para direcionar anúncios ou preguiçosamente vendendo a base de dados pra uma empresa de telemarketing.

O hábito de permanecer vigilante quanto aos dados cedidos diariamente tem grande potencial de melhorar a internet, talvez sinalizar pras empresas que "não, não me interesso tanto por essa ferramenta a ponto de te dizer quem eu sou e o que eu faço". O usuário é diariamente abusado pelo provedor de serviços digitais dentro desse modelo, e acabamos nos acostumando.

É importante ressaltar o quão absurdo é isso: serviço nenhum necessita de dados de consumo da pessoa (a não ser que isso esteja necessariamente relacionado com a prestação, lógico). Afinal de contas, um chaveiro não te pede pra tu informar teus dados pra ele antes de te entregar uma cópia de chave; ou bombeiro nenhum pergunta teu RG antes de te tirar de um prédio em chamas.

Uma ação ativista dessas é o mínimo que podemos fazer pra resistir sermos transformados em ovelhas com a orelha marcada.

Como pensar em investimentos financeiros

Tive a oportunidade de conversar com diversos amigos sobre investimentos financeiros nos últimos dias. Volta e meia alguém me pergunta alguma coisa sobre onde colocar o dinheiro, porque tem uma boa quantia parada ou na poupança, e sente que a poupança rende pouco ou nada, em vários níveis de indignação ou indagação.

Por causa da faculdade que estudo e o trabalho que tive no banco e também por tido bastante interesse nessa coisa de mercado financeiro cedo na vida, acabei aprendendo algumas coisas sobre vários tipos de investimentos, lendo sobre Bolsa de Valores, títulos de renda fixa, Tesouro Direto, etc., e me sinto confortável pra falar com os amigos sobre esse mercado, até arriscando um palpite sobre as nossas poupanças.

Primeiro de tudo, fico um tanto empolgado com a quantidade de amigos que têm dinheiro guardado a ponto de se preocupar em investir em alguma coisa, e depois por se interessar pelo mercado financeiro. Acredito ser importante participar desse meio e tomá-lo de arrasto, caso contrário estaremos eternamente reféns dos bancos, seus produtos e sua consultoria parcial e nem um pouco benéfica.

Entrando no assunto mesmo, vou focar na minha resposta, pessoal e nada profissional, sobre onde investir, já que “a poupança rende tão pouco”.

Muitos amigos estão entrando em contato com os títulos de renda fixa (do Tesouro Direto, especialmente), principalmente através de novas consultorias, como a Empiricus, e ficam atraídos pelos resultados divulgados, de rendimentos de até duzentos por cento, dois mil porcento, sei lá quantos bilhão porcento, e imaginam estar perdendo dinheiro ao deixá-lo nos 0,3715% ao mês da poupança.

Mas é lógico, e isso tem que ficar bem claro pra todo mundo, que nem tudo que reluz é ouro.

Não que os caras não consigam montar carteiras excelentes, com rendimentos ótimos. Os rendimentos que eles anunciam não são mentirosos. Mas também não são totalmente verdadeiros: são divulgados os números brutos, sem considerar diversos tipos de descontos que ocorrem nas aplicações.

Ao pensar em investir no mercado financeiro, é muito importante se conhecer: és muito ansioso? Qual seu nível da chamada “aversão ao risco”? Irias desmaiar caso percebesse que o dinheiro sofreu uma desvalorização de um dia pro outro?

Alguns tipos de investimentos são bem seguros, contam com proteção do Fundo Garantidor de Crédito (cobre até 250 mil de perdas em caso de falência da instituição financeira); outros são menos seguros, podem sofrer desvalorização de um dia pra outro (isso no caso de investimentos em renda variável, por exemplo, ações).

Além disso, é importante definir qual a importância do dinheiro de investimento pro seu dia-a-dia, e escolher um tipo de aplicação baseado em alguns critérios que são comuns a todos: data de vencimento (curto, médio, longo prazo), tipo de rendimento (pré, pós ou misto), liquidez (o quão rápido se pode resgatar o dinheiro), tributação (incidência de IR e/ou IOF), segurança (possui proteção do Fundo Garantidor de Crédito ou não).

Normalmente os sites de investimentos te dizem para tirar o dinheiro da poupança e colocar no Tesouro Direto, que seria mais vantajoso e tão seguro quanto. Isso é parcialmente verdade. O Tesouro Direto tem maior rendimento sim (pode-se comprar títulos de taxa pós, pré e/ou misto, indexados aos índices de inflação e SELIC), e possuem liquidez quase máxima (no caso de resgate, o dinheiro é creditado à conta no próximo dia útil). Essa liquidez, no entanto, ainda é menor que da poupança, que não tem tempo de espera, estando à mercê apenas do horário de expediente bancário e/ou transferências por canais digitais.

Além disso, duas coisas não são ditas nessas propagandas do Tesouro Direto: há incidência de Imposto de Renda sobre o rendimento (entre 25% e 17,5%, dependendo do tempo que o dinheiro esteve aplicado) e o rendimento, caso o título seja retirado em data anterior à data do vencimento, não vai ser aquele contratado. Ou seja, caso tenha alguma dificuldade ou emergência financeira, provavelmente terás um rendimento de taxa diferente do esperado, e cobrança de IR maior que o esperado. Além disso, existe a taxa de custódia da B3, que apesar de pequena deve ser considerada também na contratação do investimento.

Nada disso acontece na poupança, porque ela é o investimento mais básico do mercado financeiro brasileiro. A liquidez é máxima, o rendimento é baixo, e não incide tributação, tarifas ou taxas. Isso é conhecido de largada.

Basicamente os meus dois centavos sobre o assunto são os seguintes: existem tarifas diferentes a serem pagas no mercado financeiro, além de os diferentes tipos de investimentos terem características variadas. É necessário saber quanto se vai investir, qual a importância do dinheiro pra sua vida cotidiana (terás que utilizá-lo caso tenha alguma emergência, ou será um dinheiro puramente especulativo, sem necessidade de liquidez?), qual tipo de investimento te agradas, quanto vai render de forma bruta, qual será o total dos descontos, e qual vai ser o valor líquido retirado. Esse valor líquido certamente tem que ser maior que um investimento na poupança, pra valer a pena.

Além disso, se vais contratar algum serviço de consultoria como a Empiricus, certamente deves considerar o valor da assinatura dos serviços deles junto no rendimento dos investimentos.

Tenho dois conselhos para os amigos que querem começar a investir: primeiro, aprender a usar o Excel para fazer cálculos desse tipo. É muito útil e certamente vai te ajudar a saber se está pagando mais por assinaturas, comissões, corretagem, imposto, custódia, etc. do que recebendo juros. Segundo, deixar um valor aplicado em poupança, por menor que seja o rendimento, para ter liquidez em caso de emergências (ser demitido, ter um problema de saúde, problema familiar, etc.). Depois de separado o “dinheiro de emergência”, aí sim vale a pena fazer aportes para aplicações financeiras mais ousadas.

De qualquer forma, é ótimo o interesse no mercado financeiro, especialmente por tantos jovens. É possível que esteja surgindo uma nova geração, com nível de poupança mais alto que o anterior, e isso certamente ajuda no desenvolvimento de qualquer economia. A base do nosso sistema é a poupança, e os bancos e financeiras são tão gigantes porque infelizmente o mercado de crédito é muito solicitado, cobra caro e não tem concorrência.