Qohélet XXI

Teologia Crítica para nossos dias insanos.

Para a glória de Deus, nosso mundo é ambíguo


A ambiguidade como caráter bom do mundo


Pare e pense: Nesse mundo o ser humano pôde tirar da natureza, através de sua capacidade cognitiva, o conhecimento necessário para produzir uma ferramenta afiada; agora ele pode usá-la para cortar uma fruta de casca dura, que somente dessa forma irá usufrui-la para se alimentar; essa mesma capacidade de criar uma ferramenta afiada que realize cortes na fruta, pode ser usada para cortar qualquer coisa, incluindo: Sua esposa, seus pais, seus filhos, outras pessoas, a si mesmo e outros animais. A possibilidade do mal: imputar dor e sofrimento é uma realidade. E está ligada a mesma realidade que possibilita fazer uso daquela ferramenta cortante para alimentar sua esposa, seus pais, seus filhos, outras pessoas, a si mesmo e outros animais, eventualmente. Percebe a ambiguidade da existência? 


Posso ser mais descritivo: a realidade do mundo existente ao nosso redor nos fornece a possibilidade de criar uma faca; posso usar essa faca para decapitar meu filho recém nascido, ou mesmo rasgar a barriga de uma mãe grávida e tirar a criança de lá, matando a mãe e o filho. Mas posso com essa mesma possibilidade que a realidade do mundo existente me fornece, criar uma faca e com ela cortar uma melancia e alimentar minha esposa grávida.


Esse é o caráter ambíguo da existência. Mal e bem parecem coexistir, muito além de mera possibilidade, mas ser um fator intrínseco da própria realidade. Mas porque disso? Bem, só assim poderíamos conhecer o caráter de Deus.


Como um Deus bom e amoroso pode ser reconhecido onde a realidade da existência é plenamente boa e amorosa de maneira intrínseca em si mesma? Não haveria diferença entre o Criador e a criação. Cairíamos num panteísmo, certamente. Sequer seriamos capaz de compreender a existência de um Deus pessoal.


Digo mais: a própria criação seria um tipo de deus em si mesma, e não seriamos capazes de compreender e amar o Deus criador, uma vez que a própria criação têm as mesmas características de Deus, ou, parece possuir as mesmas características de Deus a ponto de nós não sermos capaz de discernir entre a criação e o Criador.


O mundo quando Deus criou estava direcionado para o bem, o bom; mas traçamos uma direção oposta. Daí se entende a necessidade de salvação por intermédio de Cristo e a promessa de uma nova Jerusalém. Importante lembrarmos que o homem quando adora a criação e não ao Criador, é acusado de idolatria (corretamente!). Ambos não podem se confundir de maneira alguma.


Nosso mundo é ambíguo para que a glória de Deus se manifeste, e que nós, dotados do livre-arbítrio possamos amar verdadeiramente a Deus; termos conhecimento e reconhecê-lo diante da existência, e enfim, optemos pelos caminhos do Senhor que são bons e justos.


Se compreendermos profundamente isso, podemos começar a pensar numa antropologia teológica no qual possui em sua centralidade a dependência extrema de Deus. Sem Ele nada somos e nada podemos. Estaríamos condenados a morte eterna se o amor de Deus não fosse tão grande em nos salvar de nós mesmos através do sacrifício de Cristo na cruz.

O mundo como um meio de possibilidades ambíguas abre espaço para o agir de Deus com seu amor e bondade; nós criamos a imagem e semelhança de Deus também podemos agir conforme a vontade de Deus. Se não fosse assim, então o bem que faríamos seria simplesmente porque não temos outra opção, portanto, anularia o bem real.


Isso não diminui o problema e relevância do mal. Mas também não é minha pretensão de desenvolver uma nova teodiceia. Apenas aponto que a superação desse mal é Deus e somente Deus. Sua promessa culmina na nova Jerusalém, no mesmo corpo glorificado de Cristo.

Se a vacina fosse contra impotência, já estavam fazendo filas nos postos de saúde


Homens entusiasmados com a notícia; mulheres eufóricas arrastando seus maridos para as enormes filas do posto de saúde... Sem mais viagra, sem mais neurose por não conseguir manter uma ereção, sem mais insatisfação feminina e orgulho masculino ferido, pois a vacina contra impotência está disponível no postinho mais próximo da sua casa. O negacionismo é somente seletivo.


As mídias de comunicação há um tempo estariam reportando matérias dos resultados obtidos nas fases de testes antes de ser aprovado pelo Governo e levado para a população. Talvez um ceticismo pairasse nesse momento; indagariam: "Será que é verdade?", "Só acredito vendo!" e quem sabe alguns paranoicos negacionistas criassem uma teoria de que a vacina faz cair o pinto ou te faz infértil? Creio que essas teorias logo cairiam por terra quando a população masculina começassem a tomar a vacina. Pois, caso alguém duvidasse do resultado obtido pela vacina e persistisse em delírios inventados, logo apareceriam no grupo de WhatsApp, nas conversas no corredor do serviço, na roda de bar, os diversos relatos positivos das experiências próprias que os rapazes tiveram da eficácia da vacina.


Podemos trazer mais um questionamento que considero importante nessa reflexão: e se no meio de relatos positivos, aparecessem relatos de quem tomou a vacina e mesmo assim broxou? Penso que de imediato, o ceticismo poderia ser alimentado, mas não sustentado por muito tempo. Por que? Porque pra broxar existem diversos fatores. Consegue transar pensando na fatura do cartão de crédito e no salário miserável que você ganha no fim do mês, sem broxar? Ou em como seu estado de saúde lastimável - fruto de anos de fast foods, churrascos todos fins de semana, cervejas e frituras baratas e nenhuma atividade física - tem influenciado sua performance? A resposta é: não.


Fazer associação de uma coisa próxima de você, com outra coisa que tem maior relevância e de fácil acesso a memória é um comportamento humano comum. Se todos falam da vacina, e você tomou a vacina, e todos falavam que ela não funcionava, quando você broxar, naturalmente, culpará a vacina. Mas uma coisa não necessariamente tem a ver com a outra. Como vimos, diversos fatores podem ser o culpado dos relatos de broxar e nenhum deles ser diretamente a vacina. Por isso precisamos de um conjunto de elementos metodológicos que nos ajudem a sair desse mar de informações sem pé e sem cabeça. Mas como fazer isso?

Evangelização em redes socais é muito cringe

Quando dizem que o chamado que receberam de Deus é para evangelizar... na internet.


Evidentemente, temos um problema logo de cara nesse tipo de afirmação.


Tempos atrás quando um individuo dizia que foi chamado para "evangelizar", a primeira coisa que vinha em mente era alguém largando toda a comodidade, bem-estar e conforto de casa para se atirar no incerto: As ruas dos mundo afora num desejo ardente de anunciar as boas novas do Cristo ressurreto; enfrentando todo tipo de diversidade que esse mundo caído oferece gratuitamente - inclusive, viver sob risco de ameaça física e moral constantemente - esse alguém estaria disposto a morrer por Cristo, se fosse necessário.  Bom, mas não é sobre esse tipo de evangelista que estou expondo aqui. Esse grupo que tem emergido das profundezas da internet, possuem nomes gourmetizados para referirem-se a si mesmos numa roda de amigos depois do culto e todos pensarem como eles são bacanas. Essa galera é conhecida como "evangelizadores de mídias sociais", ou como são chamados comumente: influencers cristãos.


Essas criaturas de Deus, que vivem sob habitat urbano (na maioria das vezes), se alimentando de McDonald's e Coca-Cola ou Starbucks e Outback, - se forem de classe média, é claro - equipando-se de algum modelo de Galaxy da vida no primeiro tipo, e no segundo tipo, um iPhone como ferramenta de "trabalho" para o Reino de Deus. Essas criaturas insistem em dizer que todo engajamento digital obtido com seguidores, curtidas e comentários no Instagram, TikTok e sei lá o que mais, é para Deus... Sim, para Deus (risos). Se essa situação não lhe parece tragicômica o bastante, creio que você perdeu a capacidade de refletir sobre o que essa situação significa.