Never stop exploring ✌
5973 words
@pedrodnunes

Intimidade

Será que nos tornamos uns cínicos no que diz respeito ao amor?

Porque é que o debate colocou de um lado os solteiros e do outro aqueles que escolhem uma relação?

Quem vive hoje sozinho regozija por estar mais disponível para os que o rodeiam. Pode estar mais com amigos, família, etc.

Viver sozinho já não é visto como uma potência para a solidão ou depressão. Cada vez mais é uma escolha e um estilo de vida.

Para quem escolhe outra opção, verifica-se que há uma espécie de contração da vida. Não se sai tanto, há menos convites de outras pessoas, menos copos com amigos... Até os próprios familiares diretos preocupam-se menos. Quando surgem os convites normalmente são direcionados ao casal e não a algum dos elementos em separado.

Casamento/relacionamento não devia levar ao afastamento de outras pessoas. 

Há muita gente que associa o bem estar de um filho à necessidade de haver um casamento/relacionamento dito normal/tradicional, quando na verdade o que uma criança precisa é de estabilidade não de um modelo de família.

O amor é o que sustenta a vida, não a nossa tendência em o amarrar a tipologias de relacionamento/família. Nós precisamos de uma cultura que suporte relações de intimidade, apenas isso.

Vivemos na era em que a maior epidemia é a solidão e mesmo assim, preferimos discutir sobre qual é a verdadeira expressão do amor. Nós precisamos é de apoiar todos aqueles que cuidam.

Terapia de Casal

Como ver um casamento a ir pelo ralo...

Um dos elementos do casal de repente decide começar a sair mais do que o normal com os amigos/as – “Beber copos com os amigos/as” ou “ir com os/as amigos/as a algum lado”. Começa a estar mais vezes indisponível para a/o companheira/o, desculpa-se de não poder atender certas chamadas...

Um dos elementos do casal vive obcecado com a imagem, com o que os outros pensam dele/dela. Torna-se até doloroso ver alguém a fingir tanta confiança.

Um dos elementos do casal permite-se a mandar comentários sobre o corpo de outras pessoas do sexo oposto e faz aquele sorriso de lambão como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Para além disto, opina sobre o próprio corpo e pior, tentar mudar/influenciar o corpo do/da seu/sua companheiro/a.

As pessoas devem respeitar a liberdade de quem gostam/amam, mas não são inteligentes se acreditarem que nunca serão traídas. Muitas traições vistas em retrospetiva já apresentavam algumas bandeiras vermelhas antes de acontecerem. Opta-se por não falar desses “alertas” por causa de uma crença estúpida de que nunca vai acontecer nada de maior, ou neste caso, algo pior...

A não ser que sejam outras as regras definidas desde o início da
relação, em princípio há um compromisso de fidelidade. Posto isto,
traição é traição. O amor, o casamento, etc. não mudam propriamente uma
pessoa. Traidores vão sempre encontrar uma forma de enganar e têm sempre
uma desculpa para o seu comportamento.

Em certos casos toma-se a decisão de ficar ao lado de alguém que já não nos preenche, só porque achamos que essa mesma pessoa “precisa” de nós...

Não somos responsáveis pelos os outros, não lhes devemos nada. Se já não estamos felizes, devemos sair da relação – seja ela qual for. Eventualmente até se pode ficar como amigo/a para dar apoio em alguma situação mais complicada, isto se realmente valer o nosso precioso tempo, mas o melhor é não gastar nem um minuto a mais com uma relação que já não carrega qualquer sentido.

Qualquer terapeuta de casal dirá o mesmo, o objetivo de uma intervenção/consulta é sempre identificar o melhor que for para o casal, e em muitos casos isto passa por perceber que este tem objetivos e valores diferentes e por isso a solução é a dissolução do casamento de forma mais graciosa possível.

Nos relacionamentos como em quase tudo o resto, tendemos a privilegiar o conforto em prol da verdade.

Sentir obrigação de ficar no relacionamento pelo simples facto de que já se investiu muito tempo ou porque existe qualquer pressão social para continuar tudo como está.

Jardim Secreto

Hoje lutamos tanto por likes, para sermos vistos pelo maior número de pessoas que acabamos por pagar com a nossa própria privacidade. Servimos numa bandeja a nossa intimidade, para que todos apreciem. Ter segredos deveria ser um direito irrevogável. O idílico jardim secreto que inspirou tantas histórias, território para as paixões secretas e protegido das garras do mundo exterior, deixou de existir. Neste jardim, falava-se com as flores (entre outros) histórias que não eram para partilhar, até porque muitas vezes, experiências e coisas imaginadas são para ser enterradas no domínio privado. No jardim secreto há mais culpa que inocência. Lá não é como no mundo cá fora em que as coisas para existirem têm que ser marcadas por GPS, fotografadas, partilhadas ou alteradas por um filtro. No jardim secreto ninguém sabe o que se passa e vivem-se tantas coisas boas...

Relações Abertas

Porque é que tornar uma relação mais aberta é mau sinal?

Se a nossa cara metade insiste para que a relação se deve tornar mais aberta e no fundo não nos parece boa ideia, então a resposta deve ser, não!

Concordar apenas pela crença de que pode beneficiar a relação, vai muito provavelmente trazer mais problemas para além daqueles que claramente já existem. Isto se não der a machadada final no enlace.

Muitas vezes quando um dos elementos do casal faz esta abordagem, no fundo está a tentar arranjar um bilhete para sair da mesma de forma mais airosa possível.

Uma coisa é uma relação começar logo no registo aberto, agora se é algo que nunca o foi e começa a ser, o mais certo é começar a degradar-se.

Em qualquer momento, seja qual for a decisão a tomar, não nos podemos deixar cegar pelas boas memórias do passado. Nada pode sobrepor-se ao facto de alguém nos fazer sentir como algo sem valor.

O que leva alguém a mudar(abrir) um relacionamento é a cobardia. Uma pessoa começa a sentir um certo descontentamento em relação à outra metade mas até aquele momento não tem propriamente uma boa razão para terminar o relacionamento. Por isso, escolhe o caminho que lhe permite sabotar, magoar, enganar, e com isso obter uma forma de sair da relação. À superfície os métodos são característicos de alguém egoísta, mas que no fundo não passam de medo e cobardia. Medo de ter que assumir o peso de terminar algo, de escolher passos errados, medo de perder o conforto...

Abrir a relação a outras pessoas, não só é uma desculpa para trair como também uma forma de testar algo e manter o plano B caso corra mal que é manter o relacionamento que já se tem.

O que realmente interessa é que temos que ser sempre honestos e diretos sobre o que esperamos de uma relação e temos que esperar o mesmo da outra pessoa. De vez em quando tem que se reavaliar o patamar onde estamos no que diz respeito à vida e ao relacionamento. Se não gostamos do que vemos, só resta mudar, porque só temos uma vida. Não vale a pena complicar algo que sempre foi simples, o amor entre duas pessoas, que pode existir ou não.

Inferno

O inferno espera todos aqueles que põem a dar música em locais onde outras pessoas não podem escapar. Aliás, há quem o faça mesmo tendo auscultadores disponíveis. Por isso derreter a tripa nas chamas ardentes é o mínimo que se pode fazer por estas almas.

Na maré de fogo também serão corados todos os que traem e com eles os que acham que isso passou de condenável a algo cool, símbolo de liberdade, macho-alfa, entre outros chavões. Para além do fogacho, um espeto luminoso pelo reto acima será colocado à disposição.

Se ainda houver quentinho serão deixados entrar todos os que ouvem mensagens de voz no telemóvel com outras pessoas por perto. Ninguém quer saber, e por isso, antes de serem queimados vão ficar à espera para serem dos últimos e dessa forma se deliciarem com a sinfonia de sofrimento alheio de quem já grita bem no fogareiro público.

Por fim, nas fagulhas saltitantes vão ainda todos os que mandam para baixo outras pessoas de forma a se sentirem melhor (mais para cima). Não há necessidade de rebaixar alguém apenas com o intuito de nos destacarmos, por isso, estes serão convidados a servir de chão para que sua santidade belzebu, chifrudo, maligno, malvado e príncipe das trevas satanás, possa caminhar e rejubilar com todo o espetáculo!

Fim

Há qualquer coisa na sociedade que nos impele a lutar sempre por um relacionamento, mesmo quando as coisas já não estão a correr bem.

Não devia ser assim. Uma relação pela qual temos forçosamente que lutar provavelmente já não merece ser salva. Lutar não é a palavra certa.

Para uma relação resultar temos basicamente que investir em duas coisas, compromisso e comunicação. Se em algum momento temos que lutar para manter alguma pessoa na nossa vida, muito provavelmente mais vale deixá-la ir. Não vale o esforço. Desta forma estamos-nos a libertar e a permitir que se encontre alguém que de facto invista em nós e num futuro a dois. Por exemplo, quando numa relação um dos elementos do casal trai, a outra metade é encorajada a lutar e a não desistir. Dizem-nos que a traição pode ser um sinal de algo maior, que até pode ser algo que o casal possa trabalhar e lutar juntos... Mas nem sempre. Na maior parte das vezes a pessoa que trai simplesmente atira-nos para cima problemas que não podemos resolver. Não nos podemos tornar mais bonitos, inteligentes e emocionalmente mais disponíveis. A outra pessoa tem que amar aquilo que tem à frente, não uma versão futura daquilo que podemos vir a ser se mudarmos....

A vida real não é um filme, e há muita gente que através dos seus atos se torna num caso perdido, sem recuperação...

Por algum motivo relações não saudáveis esticam-se mais do que deviam, durante meses/anos... Simplesmente lutamos pelo facto de estarmos metidos na relação. Lutamos sem perguntar porquê. Isso ou esperamos que alguém lute por nós. Porque é que essa pessoa o faria?

Toca a parar de lutar. A palavra é investir. Se a pessoa com quem partilhamos a vida não o faz, então adeus.

Perfeição

Na língua japonesa há um termo, shokunin, que representa os artesãos que dedicam a vida inteira a aperfeiçoar determinada arte/tarefa. Por exemplo trabalhar em lâminas, esculpir cerâmica, aprender a cortar peixe de forma perfeita... Este foco em algo específico revela uma crença, uma humildade, de que há sempre margem para melhorar, que uma vida nunca será o suficiente para nos tornarmos realmente mestres em alguma coisa. Enquanto a maior parte de nós ficaria satisfeito com 90%, um shokunin olha para a vida como havendo um só caminho, chegar até aos 100%.

Muro

O carácter edifica-se lentamente, tijolo a tijolo, numa parede que minimiza o contacto com a vizinhança – a dona fraqueza, a senhora dúvida, etc. A cada tijolo, mais auto-controlo, humildade, curiosidade, bondade, honestidade, optimismo... Assim se fazem as grandes obras, ou melhor, se cimentam os grandes homens. Na hora de construir, não há dúvidas, apenas a certeza daquele momento, sem urgência, concentrado em equilibrar a força e o jeito, num balanço que segura a vida. A cada tijolo dá para ver que o mais difícil já passou. O trabalhador respeita o tempo e o compasso. Desde que tem construído muros sabe que a cabeça tranquila é a melhor conselheira. Por isso todos os dias quando chega a casa, antes de tomar banho, o primeiro repouso é um beijo na testa da mulher que sempre amou mas que nunca soube verdadeiramente erguer um muro digno desse sentimento.

Saudade

A saudade é o pranto feito música nas cordas da guitarra, é dor para lá do corpo, é um torpor que nos atira para um passado que já não volta mais.

Saudade é estar sempre a ver o mesmo filme, em lágrimas, e não querer abandonar a sala de cinema...

Por isso é que prefiro a saudade da Bossa Nova, que o escritor Osvaldo Orico descreveu como sendo mais feliz que triste, mais imaginação que dor... a saudade que em vez de chorar, canta. Música essa que nos deixa com um sorriso nos lábios, memórias no prato, saudades no copo, pensando em quem já não vem mais para jantar...

Garagem

Há pessoas que nos fazem sentir mal mas com as quais nunca chegamos a cortar relações/ligações.

Isso faz lembrar alguém que tem a garagem cheia de tralha que nunca usa mas que a mantém a ocupar espaço por um único motivo: “um dia posso precisar disto.”

Se for esse o caso, se num cenário remoto realmente precisarmos, se no futuro formos tirar algo de positivo de uma relação passada, a questão é: vale a pena todo o stress e investimento psicológico ao longo dos anos?

A garagem sempre cheia de tralha está constantemente a ocupar espaço na nossa cabeça, a afetar quem somos, o que fazemos... O impasse não existe como algo exterior a nós, o impasse somos nós próprios que o criamos como forma de justificarmos a garagem cheia de tralha (manter os vínculos com determinados pessoas). A questão a fazer é: “quantas vezes é que fomos à garagem buscar algo que tenha contribuído de forma positiva para a nossa vida?”. Mais vale esquecer e deitar fora.

Patinhas

Se pensar num dos amores que mais me marcou na vida, escolho sem dúvida o meu primeiro gato – chamado Patinhas. Entreguei-me a ele completamente desarmado, sem receio, a pedir a sua atenção... sabia que precisava dele e ele precisava de mim. No dia em que tive de sair de casa por causa do meu divórcio, levei na mala uma sensação profundamente triste que nunca senti em relação a mais ninguém, os seus olhos e o miar que representavam a familiaridade, na verdade foram lidos por mim como o som e a expressão de quem nunca iria perceber porque me fui embora. Os gatos não percebem porque os abandonamos e continuam a miar mesmo depois da porta bater. Fui embora e nunca lhe pude explicar porquê.

Espelho

Quando me observo ao espelho, tenho a sensação de que espreito a intimidade de um estranho (ou pelo menos vejo sempre alguém diferente). Sei que sou feito deste corpo e que este se faz pelo tear do tempo. Sei que sou feito da mesma água que deixo a correr no lavatório, sou a coragem e o medo, sou um oceano de coisas que me consomem. Sou um conjunto de impulsos e sou uma montanha de aborrecimento. Descubro-me no tédio. Aponto em diferentes pontos no espelho para encontrar referências sobre mim mesmo para amanhã ainda me lembrar daquele que no dia anterior me cansei de ser. Toda a minha presença é vazio e toda ela ocupa e se vê no espelho que observo. Amanhã quando aqui voltar, serei outra pessoa.

Nada

Vamos todos morrer, o rico, o pobre, o pedreiro, o político... No fim monta-se o circo todo, há lágrimas, cânticos, o padre faz palhaçadas, sai caixão aos solavancos, um acontecimento! Só isso (a morte) devia ser o suficiente para nos aproximar e fazer amar o quanto for possível, mas não. Nós vivemos aterrorizados/adormecidos pelas trivialidades do dia a dia – clicks, likes e piscadelas do fortuito. Resumindo, somos inteiramente consumidos por nada.

Legos

Não existem problemas complicados, o que existem são problemas complexos.

Problemas complicados implicam uma solução também complicada, algo monolítico, tipo a fome no mundo, etc. Um problema complexo é na sua natureza um número elevado de problemas mais simples.

Um dos exemplos para um problema complexo é a discussão entre Deus e a Ciência. Numa primeira instância Deus parece uma resposta mais fácil face aos mistérios da vida. Porque chove? Deus decide dar uma mijadela. Porque sofremos? Deus tem um plano para nós, não há razão para preocupação. Se compararmos com a ciência, porque chove? Água, temperatura, condensação, tensão, nuvens, chuva, etc. Bem mais complexo do que a versão de Deus... Mais complexo mas não é mais complicado. Porque uma força que não se vê e não se compreende (Deus) vai ser sempre mais complicado que o conjunto de pequenos e simples processos que juntos produzem o efeito final (Ciência).

Quando vemos algo complicado, na verdade estamos a falhar em perceber as partes simples que fazem o problema ser complexo e não complicado. Por vezes não olhamos o suficiente para o problema até ver os legos que constituem as paredes e que juntas formam o castelo.

Sempre que estivermos perante um problema complicado o conselho é relaxar, dar tempo até ser possível ver as diferentes peças, ter tempo para absorver as partes em vez de nos deixarmos vencer pelo todo.

Adultério

Evoluímos do formalismo da palavra adultério, para a mais comum, traição. Em teoria, a segunda parece mais áspera, mais dura do que a primeira... Na prática vai dar tudo ao mesmo, cada vez mais há pessoas a quererem mostrar que também dão duas por fora e sobretudo a quererem opinar (e até desvalorizar) a questão.

Neste mundo moderno, as relações e o sexo transformaram-se em versões formato bimby – rápido, muito e variado para basicamente todo o esforço resultar em comer sempre mal.

As opiniões para justificar os atos adúlteros (gosto mais desta palavra), circulam à volta da necessidade em fugir da rotina, tentar escapar da imagem que alguém tem de si mesmo/a e procurar um reforço da sua autoestima, tentar obter mais adrenalina, excitação, procurar um romance, ter mais sexo, encontrar o amor (outro), ser valorizado, experimentar algo de novo, ver um corpo diferente, procurar a novidade, etc...

Apesar disto tudo, o adultério resume-se à pessoa que o comete e à falta de resposta a algo essencial: que tipo de relação esta pessoa quer estabelecer consigo própria/o? O que está na raiz da necessidade de trair? Por mais que todos queiram opinar sobre isto, e por mais tentador e excitante que possa ser seduzir e ser seduzido, nenhuma escolha será melhor e mais saudável para nós (sobretudo a médio e longo prazo), do que terminar a bons termos relações que já não nos preenchem e dessa forma podermos saltar de corpo e alma para outra coisa sem ter que queimar pontes. Trair os outros é fácil, o pior é quando traímos a nós próprios.

Com o advento da Internet, etc. deixamos de estar totalmente presentes em cada um dos momentos, ora estamos num sítio com alguém, mas conectados noutra coisa qualquer... isto espelha os relacionamentos que temos, nunca estamos a 100% presentes, não sabemos o que é amar nos termos do tudo ou nada. Já não há românticos e já se foram os carteiros, agora é tudo em prol do EU, o próprio corpo, os amigos, o trabalho, as selfies, o ser melhor, o comer mais, o ganhar mais, ter mais protagonismo e mais exposição. Somos uns agregadores de tudo e aposto que no futuro não vamos deixar nada de jeito.